Alerta Coronavírus – por Carlos Lula, secretário de Estado da Saúde do Maranhão

Alerta Coronavírus

Artigo do secretário de Estado da Saúde do Maranhão, Carlos Lula, publicado no Jornal Pequeno, no dia 02 de fevereiro de 2020

Cidades sitiadas. Brasileiros impedidos de retornar da China. A cada dia 2 mil novos casos confirmados. O novo coronavírus fez a Organização Mundial da Saúde declarar estado de emergência global. Governos e órgãos de controle de doenças infecciosas tentam encarar o possível risco de epidemia. Enquanto isso, o Brasil se prepara para o vírus e para o carnaval – simultaneamente.

Há quem tenha caído na pilha do medo do novo coronavírus. Quis fugir pra colinas. Isolar-se do mundo. Criar uma casa no subsolo e esconder-se com mantimentos por um bom tempo. Não é por menos. A superexposição do assunto dia e noite. A atualização diária dos números. Não teria como o mundo tratar de outro assunto quando todo dia tem o coronavírus estampando a manchete dos principais jornais, o tópico principal da rede social e as falsas notícias rolando por diversas plataformas – mais rápidas que o vírus.

Mas todo esse alarde é, em parte, no mínimo, inadequado. Pense comigo. O vírus apareceu na China que conta com uma população de mais de 1,4 bilhão de pessoas. Até o momento, a probabilidade de um indivíduo correr o risco de contrair a doença por lá é de 1% (casos confirmados dividido pela população). Além disso, a letalidade do coronavírus é de 2%. Este índice é muito menor que a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), de 2003, que apresentou letalidade de 10%.

Contudo, o novo coronavírus possui menor patogenicidade, isto é, o vírus faz com que muitos infectados não apresentem sintomas e, por não se sentirem doentes, acabam por aumentar a disseminação da doença à medida que transitam por diversos espaços. De outro modo, em doenças como a SRAG, quando o indivíduo fica tão doente a ponto de sair de casa apenas para buscar o hospital, existe baixíssima transmissão e seu isolamento é mais fácil.

Hoje, o que preocupa órgãos de saúde e governos é a capacidade de difusão do vírus. O que está em alerta é a expansão da doença, nada tem a ver com um possível apocalipse. Imagens que lembram filmes de Hollywood e a superexposição do assunto coronavírus têm causado certo pânico e, embora a situação não possa ser tratada com descaso, cabe aos órgãos de saúde estudar e controlar sua disseminação.

Enquanto isso, o Brasil vive um período rigoroso de chuvas. Todos os anos, este clima é preocupante pois aumenta o número de pessoas acometidas por Dengue, Zika ou Chikungunya. Os serviços de saúde ficam lotados de pessoas doentes e a causa é a mesma – todos os anos.

Em 2019, o país registrou mais de 1,6 milhão de casos confirmados para estas doenças. Centenas de pessoas faleceram. As chuvas, por sua vez, só em Minas Gerais causaram mais de cinquenta mortes. Mas isso não parece causar o mesmo pânico na população.

Quando o carnaval chegar, não precisamos fugir para as montanhas, comprar roupa de astronauta, construir uma casa no subsolo ou nunca mais sair de casa. O coronavírus não nos renderá um apocalipse, mas toda a preocupação em torno da doença poderia nos lembrar de nossas tragédias cotidianas que teimamos em não solucionar.

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