Comentários do vice-presidente do Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Serviços Sociais do Québec – INESSS, Denis Roy, a respeito da apresentação feita no Calass sobre a Planificação da Atenção à Saúde

“Muitas vezes, somos apresentados a demonstrações de sucesso de projetos no mundo anglo-saxônico. Na maior parte do tempo, ouvimos conferencistas, em geral do meio acadêmico, que nos apresentam dispositivos com histogramas com todo tipo de tendências, com resultados quantitativos e que, assim, creem-se capazes de demonstrar a eficácia da abordagem utilizada.

            Aqui, o que nos foi apresentado é um testemunho de pacientes, de cidadãos, de profissionais de diferentes áreas, de gestores, de especialistas e de tomadores de decisão de políticas públicas. Assim, isso já está muito além do que mencionei anteriormente, em termos de postura cultural, em relação às transformações. Para mim, trata-se de um belíssimo sucesso que indica como construir uma transformação social duradoura, pelo engajamento de todos os participantes do processo. Mas isso é bastante difícil de fazer e, por isso mesmo o fazemos muito pouco. Penso que isso exige uma predisposição cultural para conseguir que aconteça.
            Do ponto de vista mais específico, gostaria de traçar alguns paralelos com a experiência de transformação de práticas no Canadá e mesmo em outros lugares. Está claro que o desafio comum é a forma de enfrentamento das doenças crônicas, que é o denominador comum onde as mudanças devem acontecer em uma abordagem em rede. A apresentação emprega o termo “Planificação” para descrever o projeto como um esforço de transformação. No nosso contexto norte-americano, a planificação não tem esse alcance. Falamos, sobretudo, em gestão de processos, numa abordagem muito mais próxima da operação do que do sistema. Penso que há um ensinamento ou uma provocação de reflexão para nós: estamos muito mais próximos de um microprocesso no nosso sistema, e não tão próximos de uma visão sistêmica. Este é um desafio importante e penso que, através desse projeto de Planificação, vocês deram um passo interessante para conectar os processos à ambição do sistema. Considero isso um ensinamento interessante.

            O que vejo também, como linha de força, é o bloco de horas para o acesso aos serviços de proximidade, de atenção primária, o acesso em proximidade às comunidades como um eixo forte do projeto. Vocês conseguiram conferir poder à atenção primária, o que é um desafio, mas é claramente perceptível que as pessoas o compreendem e é muito visível no vídeo. Digo isso muito em razão da distância que vejo, no Québec, entre a medicina e o conjunto dos cuidados de saúde. A medicina de família é deixada muito sozinha e tem muita dificuldade em se sentir parte do sistema. O que vocês estão fazendo na Planificação é muito impressionante e assemelha-se ao que se buscou fazer aqui, nos anos 1980 principalmente, com os Centros Locais de Serviços Comunitários, os CLSC. Hoje, no contexto atual dos nossos Grupos de Medicina de Família, com um forte componente do modelo biomédico no coração dos serviços de proximidade, é muito difícil imaginar que isso seja possível. É uma reforma que implica, seguramente em um grande desafio. Vocês, ao contrário, demonstram a força que é o trabalho multi e interdisciplinar.

O que notei, ainda no processo de Planificação, é que ele se parece um pouco com o que se chama de “clinical pathways”, no mundo anglo-saxão, aqui chamado de “linha de cuidados” e que foram bastante trabalhados nesses últimos quatro ou cinco anos, mas sempre demasiadamente ligados ao meio hospitalar, valorizando mais os serviços especializados que os serviços de proximidade. Com isso, a articulação com os cuidados de saúde primários continua bastante frágil. Assim, podemos notar que, no fundo, temos as mesmas preocupações que motivaram vocês a conceber e desenvolver a planificação, mas ao contrário de vocês, que reforçam a capacidade de resolução da atenção primária, ainda estamos muito centrados na atenção especializada, o que indica claramente que temos coisas importantes a apreender com vocês.

Como vocês, temos a preocupação em ligar a vigilância aos cuidados, mas com muitas dificuldades porque nossos sistemas de mensuração são pouco desenvolvidos para alinhar as duas coisas e, quando o são, estão excessivamente centrados sobre os serviços especializados.

Compreendi que vocês trabalham com as estruturas existentes, buscando a articulação em rede;  transformam os processos de trabalho e estes, por sua vez,  criam valor para os usuários.

O apoio evidente dos gestores, com sustentação decisiva do Conass, é determinante para o sucesso, assim como a motivação, o compromisso e o entusiasmo das pessoas envolvidas, o que se percebe pelos sorrisos e pelo vigor das intervenções no vídeo.

            Gostei muito da citação “saúde não tem preço, mas tem custo”. Há, na nossa cultura, uma supervalorização do controle dos custos por nossos gestores, mas falamos pouco sobre a importância dos resultados. Devemos falar mais dos resultados porque as coisas não acontecem por acaso e também porque há coisas relativamente simples e pouco onerosas que podem produzir resultados formidáveis para a população em termos de diminuição de desigualdades, por exemplo.

            Por fim, trata-se da apresentação de uma inciativa com a qual nos sentimos muito familiarizados pelas ideias de fortalecimento dos serviços de atenção primária; do uso da interdisciplinaridade; do uso das linhas de cuidado; da abordagem em rede etc.
            Não é propriamente, uma revolução de ideias, mas uma revolução no uso e na aplicação dessas ideias, muito fortemente ancoradas na base, na comunidade, com uma liderança menos medicalizada e com uma dimensão menos técnica e muito mais centrada sobre as relações, marcada pela empatia, em contraposição ao saber técnico e à alta tecnologia sofisticada, o que demonstra uma diferença cultural importante.

            Entre nós, a alta tecnologia é considerada quase como divina. É como se Deus tivesse se transformado em tecnologia e nós nos tornamos cegos diante disso, o que se revela como um erro de trajetória muito grande para a evolução de nossa sociedade”.

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