Conass participa do congresso da Associação Latina para Análise dos Sistemas de Saúde (Alass)

Planificação da Atenção à Saúde e a municipalização da saúde no Brasil foram os temas abordado pelos assessores do Conass

O assessor para Relações Internacionais do Conass, Prof. Fernando Cupertino, e a assessora técnica, Maria José Evangelista, participaram, entre os dias 22 e 24 de agosto, em Montreal, do XXX Calass, o congresso da Associação Latina para Análise dos Sistemas de Saúde (Alass).

Convidado pela comissão organizadora, o Conass preparou e coordenou uma Sessão Temática sobre a Planificação da Atenção à Saúde que foi conduzida pelo Prof. Cupertino e que teve a participação da assessora Maria José Evangelista. 

Na atividade, foi exibido um vídeo com legendas em francês sobre a planificação, seguida dos comentários do Prof. Denis Roy, vice-presidente do Instituto Nacional de Excelência em Serviços Sociais do Québec. 

Roy elogiou a iniciativa e a metodologia empregada na Planificação da Atenção à Saúde e traçou alguns paralelos com a experiência de transformação de práticas no Canadá, no Québec. “Está claro que o desafio comum é a forma de enfrentamento das doenças crônicas, que é o denominador comum onde as mudanças devem acontecer, numa abordagem em rede”, afirmou.

De acordo com as observações de Denis Roy, o processo de Planificação se parece com o “clinical pathways”, no mundo anglo-saxão, chamado no Canadá de “linha de cuidados” e que foram bastante trabalhados nesses últimos quatro ou cinco anos, mas sempre demasiadamente ligados ao meio hospitalar, valorizando mais os serviços especializados que os serviços de proximidade. “Isso torna frágil a articulação com os cuidados de saúde primários. No fundo, temos as mesmas preocupações que motivaram vocês a conceber e desenvolver a planificação, mas ao contrário de vocês, que reforçam a capacidade de resolução da atenção primária, ainda estamos muito centrados na atenção especializada, o que indica claramente que temos coisas importantes a aprender com vocês”.

Na opinião do professor, o termo “Planificação” descreve o projeto como um esforço de transformação, o que não acontece no contexto norte-americano, uma vez que a planificação não tem esse alcance. “Penso que há um ensinamento ou uma provocação de reflexão para nós: estamos muito mais próximos de um microprocesso no nosso sistema e não tão próximos de uma visão sistêmica”, provocou.

O apoio evidente dos gestores, com sustentação decisiva do Conass, também foi apontado como fator determinante para o sucesso do processo, assim como a motivação, o compromisso e o entusiasmo das pessoas envolvidas.

Por fim, destacou que a Planificação indica como construir uma transformação social duradoura e afirmou estar familiarizado pelas ideias de fortalecimento dos serviços de atenção primária; do uso da interdisciplinaridade; do uso das linhas de cuidado e da abordagem em rede. Roy ponderou que não se trata propriamente de uma revolução de ideias, mas de uma revolução no uso e na aplicação dessas ideias fortemente ancoradas na base, na comunidade, com uma liderança menos centrada no médico, com uma dimensão menos técnica e muito mais centrada sobre as relações, marcada pela empatia, em contraposição ao saber técnico e à alta tecnologia sofisticada, o que demonstra uma diferença cultural importante. “Entre nós, a alta tecnologia é considerada quase como divina. É como se Deus tivesse se transformado em tecnologia e nós nos tornamos cegos diante disso, o que se revela como um erro de trajetória muito grande para a evolução de nossa sociedade”, concluiu. 

A assessora técnica do Conass avaliou como positiva a participação e afirmou que a oportunidade de apresentar a planificação em outro País ajuda a dar visibilidade ao projeto. “Foi importante para nós apresentar essa experiência, possibilitando que outras pessoas a conheçam e também para mostrar que fazemos coisas boas”. Segundo ela, havia participantes de diversos Países, inclusive brasileiros que pela primeira vez tiveram contato com a planificação.

Maria José também chamou a atenção para a avaliação do professor Denis Roy que, segundo ela, compreendeu facilmente a essência do projeto. “É difícil entender a essência da planificação logo na primeira vez. Até mesmo no Brasil as pessoas têm dificuldades, mas acredito que a maneira como apresentamos, mostrando o depoimento das pessoas envolvidas, foi fundamental para essa compreensão, pois foi a parte que mais o encantou. As imagens valem mais do que qualquer palavra”, concluiu.

Para Fernando Cupertino, a participação do Conass, a convite da organização do congresso, foi impactante e muito bem recebida, tanto pelos organizadores do evento quanto pelo público presente. “A planificação realmente é uma estratégia empolgante, apresentá-la foi elucidativo porque mostramos não apenas os elementos conceituais, a estrutura e a forma de fazer, mas também apresentamos o testemunho do conjunto de atores envolvidos nesse processo (os profissionais de saúde, os trabalhadores, pacientes) e o impacto que esse processo produziu onde já foi implantado. Foi realmente uma contribuição bastante expressiva e à altura do que esperavam os organizadores do congresso”.

Além da Planificação da Atenção à Saúde, o Conass participou de uma exposição oral feita pelo Prof. Cupertino, na qual falou sobre a municipalização da saúde no Brasil. Na ocasião, ele ponderou criticamente como se deu esse processo e abordou os caminhos que precisam ser percorridos para potencializar os resultados benéficos alcançados pela municipalização e para corrigir os problemas, os erros e as impropriedades que esse processo produziu ao longo da trajetória. “Sobre esse tema, houve também um rico debate com todos aqueles que estavam presentes de diversos Países. Ao final, os organizadores agradeceram a presença enriquecedora do Conass no evento”, destacou.

Sobre os desdobramentos do encontro, o assessor do Conass observou que eles dizem respeito à maior participação do Conselho nas discussões sobre os modos de organização dos serviços de saúde, tanto no âmbito da Alass, quanto na perspectiva do Termo de Cooperação que existe entre o Ministério da Saúde e Serviços Sociais do Québec e o Conass desde 2003, cuja renovação acontece em setembro de 2019. “Há ainda uma perspectiva alargada inclusive com a participação do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa e do próprio Ministério da Saúde de Portugal”, concluiu.  

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