ESTADÃO – ‘Funcionalismo terá cortes’, admite Chioro

Titular da Saúde diz, porém, que ‘essência do SUS’ e Santas Casas serão preservadas; dólar em alta também preocupa

Jamil Chade

19 Maio 2015 | 03h00

O ministro da Saúde, Arthur Chioro

GENEBRA – O Ministério da Saúde admite que se prepara para ajustes, mas garante que a “essência” do Sistema Único de Saúde (SUS) será preservada. Em entrevista ao Estado em Genebra, onde participa da Assembleia Mundial da Saúde, o ministro Arthur Chioro deixou claro que estuda cortes, mas ainda é direto ao pedir mais recursos para a área. Diz ainda que o envolvimento de cubanos no Mais Médicos deve ter chegado ao fim e ressalta, em relação à dengue, que não se deve “enganar a população”: a vacina não virá a curto prazo.

 

O ajuste fiscal do governo vai atingir o Ministério da Saúde?

Estamos aguardando ansiosamente para saber o tamanho do ajuste que vamos ter. Nós já fizemos reuniões. Mas, no nosso caso, temos a emenda constitucional, que garante um mínimo a ser aplicado. Então, eu sei que aquele patamar mínimo vai sustentar a transferência para o atendimento básico, para a rede de urgência, para as Santas Casas, para vacinas. Isso está protegido. Agora vamos avaliar o tamanho do ajuste nos valores que não são nos serviços de saúde.

Onde será então?

Funcionalismo, saneamento básico, emendas parlamentares. Vamos ver como vai ser. Mas a essência do SUS não será comprometida.

E qual foi o impacto da desvalorização do real na conta do governo com a importação de remédios e vacina?

Isso é algo que nos preocupa muito. Quando fizemos a programação orçamentária, em maio de 2014, o dólar estava a R$ 2,40. Mas este contexto nos exige mais do que nunca aprimoramento do controle do gasto público. Vamos ser chamados a extrair mais ainda da eficiência do gasto. Explicitamente, nós precisamos de mais recursos para a saúde. Não é o ministro da Saúde que está dizendo isso. Todos os gestores da saúde no País dizem isso. Para sustentar a transição demográfica, nutricional e epidemiológica que vivemos, para incorporação tecnológica. Isso tem impacto nos orçamentos. Uma das questões mais importantes que eu discuto aqui é a sustentabilidade de nossos sistemas. O discurso que o problema é que o dinheiro é mal gasto não é verdade. O que não impede que a transparência e a eficiência da gestão sejam melhoradas.

Como o governo vai negociar com as multinacionais, com o novo patamar do real?

Isso vai exigir um ajuste. Vamos usar o fato de que somos um mercado de mais de 100 milhões de pessoas. A renegociação com essas empresas é feita sempre.

Para este ano, o Mais Médicos não terá profissionais cubanos. Eles voltam no ano que vem?

Eu não acho, pelas características do programa. Mas, se precisar usar os médicos cubanos, vamos usar.

Qual a situação hoje da dengue no País?

Tivemos uma elevação importante dos casos desde o começo do ano, antecipando o período esperado. Isso é questão climática. É uma epidemia concentrada fortemente em três Estados: Acre, Goiás e São Paulo. Temos números muito menores que os de 2013. Uma parte da tarefa vai além do Ministério da Saúde.

E uma vacina para a doença? Será para quando?

Não temos vacina para o curto prazo. Não adianta querer enganar a população. A prioridade total é financiar as pesquisas no BioManguinhos e no Instituto Butantã. Vamos aguardar a fase 2 dos testes em julho e o início da fase 3. Mas que ela leve o tempo que seja necessário para ter uma vacina eficiente. A pior coisa é colocar os cientistas sob pressão absurda.

Então qual a solução?

A tarefa é a prevenção e o controle do mosquito. Mas qual a perspectiva para 2015? Se todo mundo que ficou preocupado voltar a fazer a lição de casa ao longo do ano, vamos ter uma diminuição no número de casos. Esse é o momento para aproveitar e em 2016 ter uma forte adesão dos municípios. Não tem como o governo federal mobilizar 5 mil municípios. Formulamos a política e financiamos. Mas precisamos do envolvimento objetivo dos municípios, para além das secretarias municipais.

<-Voltar