Guilherme Boulos – 99 contra 1

Texto de Guilherme Boulos, publicado hoje (05/02), no site do Jornal Folha de S. Paulo

No último mês, a organização britânica Oxfam apresentou um estudo sobre a concentração de renda no mundo. Os dados vieram de relatório do Credit Suisse e do anuário da “Forbes”. Os resultados são alarmantes.

Em 2009, a fatia 1% mais rica da população mundial detinha 44% de toda a renda. Esse número saltou em 2014 para 48%. Seguindo o mesmo ritmo, ultrapassará a metade em 2016 e chegará a 54% em 2020.

Ou seja, no ano que vem a renda dos 1% mais ricos ultrapassará a renda dos 99% restantes -72 milhões de pessoas terão mais recursos do que os outros 7,1 bilhões.

Se há quem ainda ache pouco, tem mais. Na massa cheirosa dos 1%, há os que são ainda mais cheirosos do que os outros. Os 80 cidadãos mais ricos do mundo -incluindo dois brasileiros- apropriam-se sozinhos da mesma renda que os 50% mais pobres, isto é, mais de 3,6 bilhões de pessoas.

Opa, alto lá! Sempre ouvimos que é com trabalho que se enriquece, que as oportunidades do mercado são iguais para todos, não é? Então, ou temos 80 cidadãos de bem e 3,6 bilhões de preguiçosos imprestáveis ou algo está muito errado em nossa sociedade “meritocrática”.

Na verdade, os números do estudo da Oxfam revelam que este mercado é um jogo de cartas marcadas e que a tão propalada mobilidade social do capitalismo não passa de ilusão de ótica: de quem vê exceções no micro para convenientemente ocultar o macro.

As toneladas de discurso dos economistas da ordem sobre progresso econômico e social são menos científicas que a letra de axé: “O de cima sobe e o de baixo desce”.

Se formos mais adiante, veremos ainda que mesmo entre os 99% -que hoje detêm 52% da renda- a desigualdade também é gritante. Dividindo esses 99% em dois grupos teremos 20% com 46% da renda total e os 79% mais pobres com apenas 6% da renda total. Mais de três quartos da humanidade com 6% da renda!

O economista francês Thomas Piketty, em sua obra-prima lançada no Brasil no ano passado, já havia mostrado que desde os anos 1970 há um crescente aumento da desigualdade social nos países ricos.

A primeira década do século 21 reforçou esta tendência, apesar do crescimento econômico. Isso porque, diz Piketty, a taxa de rendimento do capital foi maior do que o crescimento da economia, ampliando a concentração de renda.

Crescimento não significa menos desigualdade. O bolo pode crescer e as fatias serem distribuídas de forma ainda mais excludente. É o que temos visto no mundo.

Acreditar na filantropia institucional e em políticas assistenciais para reverter este quadro representa ingenuidade ou cinismo.

A redução da desigualdade exige uma forte política distributiva, com taxação das grandes fortunas e do capital financeiro, interrupção do ciclo vicioso da dívida pública e ampliação consistente dos direitos trabalhistas e dos salários.

Foram essas bandeiras que levaram 300 mil às ruas de Madri na semana passada em apoio ao Podemos. Foram elas também que elegeram o Syriza na Grécia.

O 1% de sempre jamais cedeu nada às maiorias sem enfrentamento. Ao contrário, oferece mais arrochos e cortes de direitos aqui e lá fora.

Hoje há 1 contra 99. As lutas de resistência popular pelo mundo trazem novos ventos e anunciam que poderá chegar o dia em que serão 99 contra 1.

Guilherme Boulos, 32, é formado em filosofia pela USP, professor de psicanálise e membro da coordenação nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto). Também atua na Frente de Resistência Urbana e é autor do livro “Por que Ocupamos: uma Introdução à Luta dos Sem-Teto”.

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