Medicamento contra malária desenvolvido pela Fiocruz é pré-qualificado pela OMS

A recente obtenção de uma certificação promete estender o acesso ao tratamento para malária em países asiáticos. A combinação de dose fixa de artesunato (AS) e mefloquina (MQ), tratamento contra a doença originalmente desenvolvido pelo Instituto de Tecnologia em Fármacos, da vinculada ao Ministério da Saúde, Fundação Oswaldo Cruz (Farmaguinhos/Fiocruz) em parceria com a organização de pesquisa e desenvolvimento sem fins lucrativos DNDi (Drugs for Neglected Diseases Initiative – Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas, em português), foi recentemente pré-qualificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O anúncio foi feito nesta quarta-feira (3/10) pela empresa farmacêutica indiana Cipla, juntamente com a DNDi América Latina, na Malásia, durante a comemoração dos dez anos de atividades da organização.

A certificação indica que o medicamento está de acordo com o alto padrão de qualidade exigido pela OMS e, com isso, pode ser mais facilmente adquirido no Sudeste Asiático. Para o diretor da DNDi América Latina, Eric Stobbaerts, a pré-qualificação é fruto de uma parceria importante entre a Fiocruz e a DNDi América Latina e vai trazer grandes benefícios para indivíduos que sofrem da doença. “A pré-qualificação do ASMQ pela OMS impactará diretamente os pacientes na Ásia. Celebramos esta cooperação Sul-Sul pela luta contra a malária e o seu significante passo para o acesso eficaz e universal ao tratamento da doença”, declara. A pré-qualificação é o único programa de garantia de qualidade de medicamentos no mundo. Com a obtenção da certificação, o ASMQ poderá ser ofertado por organizações que recebem financiamento de organismos internacionais, como Unicef e The Global Fund to Fight Aids, Tuberculosis and Malaria (Fundo Global de luta contra a Aids, Tuberculose e Malária, em português).

Registrado na Malásia em 2012 e na Índia em 2011, país onde cerca de 18 mil pacientes adultos já foram tratados com o novo medicamento, o ASMQ é uma das cinco combinações baseadas em artemisina (ACTs) recomendadas pela OMS para o tratamento da malária provocada pelo parasita P. falciparum, tornando-se a primeira linha de tratamento para a doença em diversos países do sudeste da Ásia. Quando usados separadamente, o artesunato e a mefloquina podem provocar efeitos adversos, resultando na desistência do tratamento por alguns pacientes. Porém, quando combinados, esses efeitos são reduzidos e o tempo para tratar a doença cai de sete para três dias. “Com a redução dos efeitos colaterais, o nível de adesão ao tratamento é maior, o que, consequentemente, diminui as chances de resistência à doença e aumenta a qualidade de vida do paciente”, explica o vice-diretor de gestão institucional de Farmanguinhos/Fiocruz, Jorge Mendonça. Além disso, segundo ele, o medicamento é de fácil uso, podendo ser tomado uma vez por dia, por crianças a partir de seis meses e adultos de todas as idades.

O ASMQ é atualmente fabricado nas instalações da Cipla, em Patalganga, na Índia. O acesso ao medicamento na Ásia foi facilitado pela transferência de tecnologia de Farmanguinhos à empresa farmacêutica indiana, em 2010. A instituição disponibilizou especialistas tanto para fazer a transferência das técnicas de controle de qualidade do produto quanto para a fabricação do medicamento. Segundo Mendonça, a cooperação sul-sul foi essencial para facilitar o acesso ao tratamento pela população mais carente do continente asiático. “Com a transferência de tecnologia, encurtamos o tempo de produção do medicamento e, com isso, agilizamos seu acesso pela população local”, afirma.

Malária – A malária ocupa o quinto lugar no ranking de doenças que mais provocam óbitos no mundo. É provocada pelo parasita do gênero Plasmodium, do qual duas entre as cinco espécies que infectam seres humanos são responsáveis pela maior parte das infecções pela doença. O parasita P. falciparum provoca a maior parte dos óbitos por malária no mundo, sendo mais predominante na África Subsaariana. As pessoas que mais correm risco de contrair a doença (1,2 bilhão) vivem na África e Ásia, sendo que a maior parte dos óbitos ocorre no continente africano, que detém 91% das mortes pela enfermidade. Já a Ásia contabiliza 13% dos óbitos em decorrência da malária. Crianças com menos de cinco anos são as mais afetadas, contabilizando, aproximadamente, 86% das mortes pela doença no mundo.
DNDi – A Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi, na sigla em inglês) é uma organização sem fins lucrativos de pesquisa e desenvolvimento de medicamentos para doenças negligenciadas como doença do sono, doença de Chagas, malária, leishmaniose, entre outras enfermidades. Foi criada em 2003 pela organização Médicos Sem Fronteiras, Fiocruz, Conselho Indiano de Pesquisa Médica (ICMR), Instituto de Pesquisa Médica do Quênia (KEMRI), Ministério da Saúde da Malásia e Instituto Pasteur da França. O Programa Especial da OMS para Pesquisa de Doenças Tropicais (WHO / TDR) trabalha como um observador permanente.

A DNDi já entregou seis novos tratamentos para pacientes com doenças negligenciadas: dois antimaláricos em dose fixa (ASAQ e ASMQ), uma terapia combinada para o estágio final da doença do sono (tripanossomíase humana africana – THA), uma combinação terapêutica para leishmaniose visceral na África, uma terapia combinada para a leishmaniose visceral na Ásia e uma nova apresentação pediátrica do benznidazol para a doença de Chagas. Com sede em Genebra, Suíça, a DNDi tem escritórios no Brasil, Quênia, Índia, Malásia, Japão, República Democrática do Congo e uma filial nos EUA. Mais informações: www.dndi.org.

Cipla – A Cipla foi criada em 1935 com o objetivo de tornar a Índia autossuficiente na área da saúde. Com o passar dos anos, tornou-se uma das empresas farmacêuticas mais respeitadas no mundo. Atualmente conta com 34 unidades no país e produz mais de 2 mil produtos em 65 terapias. Uma de suas inovações é o revolucionário coquetel contra Aids por menos de um dólar por dia, assim como uma combinação em comprimidos fáceis de tomar para crianças com HIV. A empresa farmacêutica atende a pacientes e médicos em mais de 183 países.

Fonte: Fiocruz Notícias

Foto: Fiocruz

<-Voltar