OMS reconhece como exitoso o Prêmio APSForte e a cooperação via Laboratório de Inovação

O Boletim Stories from the field, da Organização Mundial da Saúde (OMS), reconhece a importância do Prêmio APSForte no SUS e dos Laboratórios de Inovação em Saúde, ambos promovidos pela OPAS/OMS no Brasil, para o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS) e para o intercâmbio de conhecimentos entre os profissionais de saúde.

O boletim, que é distribuído para os profissionais de saúde no mundo pela OMS, destaca que o novo modelo de cooperação técnica realizada pela OPAS/OMS no Brasil “optou por desempenhar uma forte função de gestão do conhecimento”. Sobre o Laboratório de Inovação em Saúde, a OMS destaca a produção de evidências sobre práticas inovadoras desenvolvidas no Sistema Único de Saúde (SUS). “O conhecimento é organizado para fornecer elementos concretos aos gestores de saúde em sua tarefa diária de construir suas próprias soluções e ferramentas de gestão”, diz.

O idealizador da metodologia do Laboratório de Inovação, Renato Tasca, ex-coordenador da Unidade Técnica de Sistemas e Serviços de Saúde da OPAS no Brasil, ressalta na reportagem da OMS que “o Laboratório de Inovação em Saúde é um modelo progressivo de cooperação técnica para a OPAS, pois vai além da mera divulgação conhecimento de cima para baixo. Isso permite que a OPAS/OMS aprenda com as experiências locais e identifique as ilhas de excelência, as lições das quais pode ser amplamente divulgadas para outras pessoas. Sem tal cooperação horizontal, o valioso conhecimento e experiência permaneceriam no contexto local em que foi desenvolvido”.

A  sucessora no cargo na OPAS Brasil, Mónica Padilla, acredita que o Laboratório de Inovação permite aprimorar as políticas de saúde ao ter uma visão privilegiada das soluções encontradas pelos profisisonais de saúde aos problemas comuns do SUS. “A cada Laboratório de Inovação percebemos o quanto a metodologia agrega na discussão das políticas de saúde pois aproxima os gestores das necessidades vivenciadas pelos profissionais de saúde”, diz Padilla. Para saber mais sobre o LIS, acesse aqui.

O boletim divulga ainda o resultado do Prêmio APS Forte no SUS, promovido pela OPAS/OMS no Brasil em 2019, no qual analisou cerca de 1.300 experiências da APS que promovem o acesso dos usuários aos serviços de saúde. “A APS de alta qualidade é atuar sobre os determinantes sociais da saúde e não apenas prestar assistência clínica. Portanto, as experiências selecionadas refletiram a necessidade das pessoas de uma APS que não olha apenas para o indivíduo ou para a doença, mas que cuide da comunidade como um todo, atentando para o contexto em que as pessoas vivem, trabalham e adoecem”, destaca o texto. Saiba mais sobre o Prêmio APSForte aqui.

Clique aqui a versão em inglês – https://extranet.who.int/countryplanningcycles/sites/default/files/planning_cycle_repository/brazil/jwt_stories_from_the_field_issue3_brazil.pdf

Confira abaixo a íntegra do boletim traduzido para o português:

Compartilhando conhecimento para uma Atenção Primária à Saúde Forte

No Brasil, 70% da população tem acesso aos serviços de Atenção Primária à Saúde (APS), mas o que podemos aprender sobre o sucesso e a relevância da APS para que os serviços possam ser sustentados e expandidos para toda a população? A OPAS/OMS no Brasil está captando uma série de experiências e lições valiosas sobre intervenções na APS e compartilhando por meio de uma comunidade de práticas, que inclui formuladores de políticas públicas e profissionais de saúde.

Sistema de Saúde do Brasil

O Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil se fortaleceu nas últimas décadas, com 70% da população agora coberta por serviços essenciais de saúde. Isso significa que 150 milhões de pessoas podem ter acesso aos serviços de saúde sem ficarem financeiramente empobrecidas como resultado. O país está no bom caminho para alcançar a cobertura universal de saúde (ou Saúde Universal, como é conhecida nas Américas).

Apesar de pesquisas científicas mostrarem que o SUS contribui para reduzir as desigualdades sociais e melhorar os indicadores de saúde, as pesquisas de opinião mostram que, em geral, a população tem uma percepção negativa do SUS, principalmente no que se refere ao acesso aos serviços de saúde. A mídia brasileira desempenha um papel na construção dessa percepção negativa do SUS ao focar os aspectos negativos, os desafios de sistema universal, construindo um sentimento nas pessoas de que a privatização da saúde é uma solução.

A OPAS Brasil tem como objetivo conscientizar os formadores de opinião e a população sobre a relevância do SUS e tem fortalecido a disseminação de práticas exitosas. A OPAS trabalha com o Prêmio “APS Forte” e com a metodologia do Laboratório de Inovação em Saúde para captar experiências inovadoras que respondam aos problemas na prestação de serviços de APS.

Compartilhar conhecimento

O Brasil tem um forte sistema de saúde e grande sucesso na prestação de serviços de APS. Portanto, a função da OPAS / OMS é um pouco diferente da de outros países, que podem precisar de apoio técnico mais forte. No Brasil, é necessário um novo modelo de cooperação. Uma grande variedade de partes interessadas está engajada neste próspero setor de saúde pública e, portanto, a OPAS optou por desempenhar uma forte função de gestão do conhecimento. A Organização trabalha com uma equipe de pesquisadores e profissionais de saúde para coletar e analisar informações sobre práticas bem-sucedidas na APS visando compartilhar as lições aprendidas de forma mais ampla.

Ela dissemina as melhores práticas e lições aprendidas para uma grande comunidade de prática e diversos atores da saúde nos níveis federal, estadual e municipal. Isso significa que as partes interessadas da saúde em todo o Brasil podem aprender com uma variedade de experiências e aplicar abordagens novas ou diferentes. É também uma forma do setor saúde compartilhar histórias positivas e aprender por meio da troca de conhecimentos entre profissionais de saúde e gestores que vivenciam os mesmos desafios no dia a dia.

A comunidade de prática inclui pessoas do Ministério da Saúde, secretarias estaduais e municipais de saúde, pesquisadores e profissionais do SUS. Todos os funcionários públicos da APS também são convidados a participar. Essa comunidade confia nas informações que recebem da OPAS, pois são desenvolvidas de maneira científica. As experiências e lições aprendidas na APS de todas as partes do Brasil são compartilhadas em um site desenvolvido especificamente, chamado Portal de Inovação na Gestão do SUS (https://apsredes.org), por meio de outros sites organizacionais envolvidos nas experiências estudadas pela OPAS, e em redes sociais web como FaceBook e Twitter. O grupo também tem uma forma informal de se comunicar por meio de grupos do WhatsApp.

Laboratório de Inovação em Saúde

O Laboratório de Inovação em Saúde tem como objetivo produzir evidências sobre práticas inovadoras desenvolvidas no SUS. O conhecimento é organizado para fornecer elementos concretos aos gestores de saúde em sua tarefa diária de construir suas próprias soluções e ferramentas de gestão. A estratégia foi desenvolvida pela OPAS / OMS no Brasil em 2008, para apoiar as atividades de cooperação técnica realizadas inicialmente com o Ministério da Saúde. Nos últimos 12 anos, a ferramenta foi adotada por diversos outros atores do SUS, como o Conselho Nacional de Secretários (CONASS), o Conselho Nacional de Saúde (CNS) e a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Até 2019, 164 experiências inovadoras foram identificadas, analisadas, sistematizadas, publicadas e divulgadas. Todas as informações estão disponíveis no Portal da Inovação na Gestão do SUS (https://apsredes.org)

Prêmio: APS Forte para o SUS

O Prêmio de APS forte foi lançado em abril de 2019, por ocasião do Dia Mundial da Saúde. A OPAS / OMS recebeu 1.300 inscrições para o Prêmio e, na primeira etapa, selecionou cerca de 100 avaliadores, entre técnicos do Ministério da Saúde, instituições acadêmicas e consultores da OPAS. Eles foram escolhidos por suas competências específicas nas diferentes temáticas envolvidas, como doenças crônicas, saúde mental, uso de tecnologia e trabalho em áreas remotas e vulneráveis. Na fase final, a OPAS selecionou onze experiências como finalistas e o time de jurados especiais, formadores de opinião da mídia brasileira, escolheram três vencedoras (SMS Abaetetuba / Pará; SMS Jaraguá do Sul/Santa Catarina; e ESF da comunidade Salgueiro / SMS RJ).

A APS de alta qualidade é atuar sobre os determinantes sociais da saúde e não apenas prestar assistência clínica. Portanto, as experiências selecionadas refletiram a necessidade das pessoas de uma APS que não olhe apenas para o indivíduo ou para a doença, mas que cuide da comunidade como um todo, atentando para o contexto em que as pessoas vivem, trabalham e adoecem. Outra mensagem fundamental dos casos vencedores é a necessidade de um atendimento interdisciplinar que extrapole a atuação do médico, valorizando a atuação de outros profissionais que compõem a Equipe de Saúde da Família, como enfermeiros e agentes comunitários.

A cerimônia de premiação repercutiu na mídia nacional e regional do país. Também teve forte apoio da Empresa Brasileira de Comunicação do governo federal, o que fortaleceu a disseminação dos resultados. Em fevereiro de 2020, os vencedores e finalistas participaram de uma viagem de estudos na Espanha, na Escola Andaluz de Saúde Pública, Granada.

Aqui estão alguns exemplos de experiências vencedoras do Prêmio APS Forte-2019, que chamaram a atenção dos juízes:

Abaetetuba- município do Pará

Abaetetuba-PA possui 156 mil residentes e apenas 53% deles são atendidos com saúde da família. Os problemas de saúde que as pessoas enfrentam são desafiadores: altas taxas de mortalidade para mulheres em idade reprodutiva e altos números de gravidez na adolescência e casos de sífilis, HIV e hepatite viral. Ficou claro que a população precisava de melhores serviços de saúde sexual e reprodutiva. O projeto envolveu intervenções de saúde com adolescentes, adultos e idosos abordando sexualidade, valorização e respeito. Por exemplo, jovens e adolescentes participaram de oficinas de arte, atividades de educação pessoal e social, teatro e dança e abordaram temas como diversidade sexual, bullying, homofobia, cidadania e cultura de paz. Além disso, todos os serviços de saúde do município trabalharam em parceria para focar no atendimento e na prestação de serviços eficazes. Em um curto espaço de tempo, houve uma melhora perceptível com 7.028 consultas de pré-natal em 2018 em comparação com 2.862 em 2016; 4.161 visitas a serviços de saúde sexual e reprodutiva em comparação com 2.507 visitas em 2016; 1.291 testes rápidos para hepatite B, sífilis e HIV em 2017, em comparação com 432 testes em 2016; e 1.880 exames de câncer cervical em 2018, em comparação com 143 em 2016.

“A partir dos diagnósticos verificamos nosso enfoque de enfrentamento e pudemos identificar que muitas adolescentes estavam tendo uma gravidez precoce, causando uma série de transtornos pela falta de orientação e acompanhamento. Isso foi resultado da falta de integração entre as áreas de saúde, educação e assistência. Basicamente, o que fizemos foi otimizar nossos recursos. O resultado foi uma política preventiva mais eficaz e mais barata ”, afirmou o prefeito de Abaetetuba, Alcides Negrão, após participação na premiação da Agência Brasil de Notícias. Saiba mais em www.apsredes.org

Salgueiro, Rio de Janeiro

A comunidade do Salgueiro apresenta elevados níveis de carência social e econômica. A Equipe de Saúde da Família notou um número significativo de crianças em idade escolar sendo encaminhadas como resultado de comportamento antissocial na escola. A equipe trabalhou com o Centro de Referência de Assistência Social e com professores para identificar e promover ações para apoiar uma abordagem integrada de saúde e educação infantil. Comerciantes e instituições locais apoiaram o trabalho.

Foi criado um ‘Grupo de Crianças’, onde profissionais de saúde brincavam com crianças usando jogos, música, mímica, dança e ritmo e incentivavam a comunicação e o diálogo. O objetivo era atender com atitude acolhedora e calorosa. Os pais, ao mesmo tempo, foram convidados para outro grupo chamado ‘Paz e crianças’ para desenvolver a cultura de saúde e paz e para discutir quaisquer problemas que eles tivessem.

A Equipe de Saúde da Família conseguiu diagnosticar alta prevalência de maus-tratos e violência contra a criança, o que gera estresse. Portanto, é importante que os médicos diagnostiquem isso corretamente, em vez de medicalizar e patologizar as experiências da infância. Essa compreensão integral foi um marco no processo de cuidar. Com esse trabalho, as crianças ficam mais felizes e atenciosas em casa e na escola e a Equipe de Saúde da Família está mais conectada às famílias da comunidade.

“Primeiramente identificamos crianças em situação de vulnerabilidade e, por meio do trabalho envolvendo a família, fizemos intervenções de comportamento. O trabalho se mostrou mais eficiente do que a elaboração de diagnósticos, que acabam estigmatizando e, em alguns casos, medicando [indevidamente] as crianças ”, explicou o médico de família e comunidade do projeto piloto, Daniel Trindade, à Agência Brasil de Notícias.

Município de Jaraguá do Sul

Jaraguá do Sul é uma cidade com quase 175 mil habitantes, mas em novembro de 2018 os dados mostravam que ocorriam apenas 15,5 mil atendimentos por mês em 25 unidades de APS. As pessoas estavam insatisfeitas com as listas de espera e serviços inadequados e, por isso, reclamavam. O que pode ser feito?

Florianópolis, a Secretaria de Saúde de Jaraguá do Sul, elaborou um Protocolo de Enfermagem, que melhora a atuação do enfermeiro da rede municipal e reduz a fila de espera para a APS. O enfermeiro passou a atuar de forma mais efetiva nas unidades de APS. Eles puderam realizar consultas e prescrever exames e medicamentos essenciais.

Houve apoio político para o Protocolo de Enfermagem da Câmara Municipal e da Câmara Municipal de Saúde, e apoio da mídia na imprensa e demais redes sociais. Isso foi fundamental para persuadir a população a usar e se beneficiar do novo modelo de APS. O Ministério da Saúde também orientou as unidades de APS a atender as demandas espontâneas dos usuários em 70% e as demandas programadas em 30%. A experiência de Jaraguá do Sul foi muito positiva, e a atualização do Protocolo de Enfermagem pelas secretarias de saúde com o apoio dos conselhos regionais de Enfermagem, está ampliando o acesso dos usuários nas unidades de APS em todo o Brasil.

“A fila de consultas era enorme. Basicamente, implementamos ações que valorizaram o enfermeiro. Saímos da cultura de que só o médico teria a solução, de conscientizar a população em aceitar enfermeiros para algumas situações que envolvem exames e medicamentos ”, disse o secretário de saúde de Jaraguá do Sul, Alceu Moretti, à Agência Brasil de Notícias.

Fonte: APS Redes

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