Pesquisa avalia prevalência do hábito de fumar em idosos em São Paulo

A exposição ao tabaco, uma das principais causas de morte evitáveis no Brasil, pode levar à ocorrência de enfermidades respiratórias, vasculares periféricas, cerebrovasculares, cardiopatias, neoplasias, entre outras doenças crônicas ou até mesmo fatais. Embora vista como uma prática comum entre jovens e adultos, o consumo de cigarros também faz parte do cotidiano de uma quantidade significativa de idosos. É o que mostra pesquisa desenvolvida pela Universidade Estadual de Campinas, Universidade de São Paulo, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, em Botucatu, e Secretaria da Saúde do estado. Os resultados, publicados nos Cadernos de Saúde Pública da Fiocruz, revelaram prevalência de 12,2% do hábito de fumar entre indivíduos da terceira idade. E o índice tende a aumentar com o envelhecimento da população, segundo os pesquisadores.

“Por terem sofrido em suas vidas exposições mais longas ao fumo, a cigarros sem filtro e com elevados teores de nicotina, os idosos fumantes têm maior risco atual de apresentar doenças relacionadas ao cigarro do que cortes de gerações posteriores”, argumentam os estudiosos. A pesquisa envolveu 1.954 idosos com 60 anos ou mais residentes em quatro áreas de São Paulo: região sudoeste, constituída pelos municípios de Taboão da Serra, Itapecerica da Serra e Embu; administração Regional do Butantã, composta pelos distritos do Butantã, Jaguaré, Rio Pequeno, Raposo Tavares, Vila Sônia e Morumbi; e os municípios de Campinas e Botucatu.

O estudo indicou maior prevalência de fumantes (17,5%) e ex-fumantes (47,6%) idosos no sexo masculino, o que, de acordo com os pesquisadores, se deve a fatores históricos e socioculturais. “O tabagismo difundiu-se primeiramente entre os homens na segunda década do século 20 e tornou-se mais comum tanto para homens como para mulheres após a Segunda Guerra Mundial, resultando em prevalências diferentes nos diversos coortes de nascimento”, explicam.

Entre os tabagistas, 42,7% começaram a fumar antes dos 16 anos e 30,6% entre 16 e 20 anos. Ainda no grupo de fumantes, 42,5% relataram consumir 20 ou mais cigarros diariamente e 36,8% fumam cinco a 19 vezes por dia. No que diz respeito às variáveis socioeconômicas e demográficas, a prevalência de tabagistas foi maior em homens entre 60 e 69 anos, não brancos, com renda menor ou igual a um salário-mínimo e em atividade ocupacional. “A associação negativa do fumo com a renda tem sido atribuída a circunstâncias como o início mais precoce do tabagismo e a maior dependência e dificuldade de deixar o comportamento pela baixa motivação e pela falta de acesso a métodos adequados para a cessação desse hábito”, observam os pesquisadores.

Os idosos com o hábito de beber de quatro a sete vezes por semana, com dieta inadequada, baixo peso e que não praticam atividade física também se destacaram quanto ao consumo frequente de cigarro. Foi constatado índice mais elevado de fumantes em idosos de peso normal em relação aos com sobrepeso, fato atribuído, segundo os estudiosos, à atuação da nicotina no controle e regulação do apetite e da saciedade. Entre os portadores de doenças como hipertensão e osteoporose, a prevalência de fumantes foi menor do que entre os não portadores. O achado teria uma explicação: a atuação positiva dos serviços de saúde. “O aumento da frequência a esses serviços, induzido pela necessidade de controle da hipertensão, aumentaria a exposição dos pacientes a recomendações e intervenções educativas que incentivariam a cessação tabágica”, afirmam os estudiosos.

Já os idosos que sofrem de depressão e ansiedade apresentaram maior frequência de tabagismo comparado aos que não têm o problema. Esse resultado se deve, conforme relatam os estudiosos, à interferência da nicotina no funcionamento neuroendócrino que, por ser ansiolítica, contribui para o alívio dos sintomas. A mesma conclusão foi encontrada em portadores de doença crônica do pulmão, transtorno mental comum e acidente vascular encefálico (AVC). “Especial atenção deve ser dada a esses grupos de idosos fumantes com doenças crônicas, pois provavelmente apresentam dependência importante à nicotina e grande dificuldade para interromper o tabagismo”, advertem os pesquisadores.

Prevalências decrescentes de fumantes foram observadas com o aumento da idade. O motivo desse resultado, para os estudiosos, seria o surgimento de problemas de saúde, que obrigam os fumantes a cessar a prática, além da maior probabilidade de óbito de tabagistas e a crescente preocupação em relação à saúde com o avanço da idade. Segundo eles, os resultados do estudo sinalizam a urgência de políticas públicas que ofereçam tratamento e apoio aos idosos pertencentes ao segmento social de menor renda per capta e que promovam acompanhamento aos com problemas de depressão, além de contemplar práticas saudáveis, como atividades físicas. “São necessárias estratégias para cessação do tabagismo em idosos, com ações específicas para este grupo etário que se apresenta mais vulnerável a complicações e morte pela permanência do comportamento de fumar”, concluem.

Foto: Agência Fiocruz

Fonte: Danielle Monteiro / Agência Fiocruz de Notícias

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