Aumento de casos de microcefalia coloca em alerta a saúde pública brasileira

Possível relação da doença com o zica vírus preocupa gestores

Desde que começaram a surgir as primeiras notificações indicando o aumento no número de casos de microcefalia em estados da Região Nordeste, a saúde pública brasileira entrou em alerta.

O estado de Pernambuco foi o primeiro a identificar a mudança do padrão da doença no país e é hoje o que concentra o maior número de casos da doença totalizando, até o dia 21 de novembro, 487 casos, seguido por Paraíba com 96, Sergipe com 54, Rio Grande do Norte com 47, Piauí com 27, Alagoas com 10, Ceará com 9, Bahia com 8 e Goiás com um caso, sendo o único estado fora da região Nordeste a notificar.

Em uma ação rápida, o secretário de Estado da Saúde de Pernambuco (SES/PE), Iran Costa Júnior, ao ser comunicado da  situação, reuniu-se com os diretores das duas maternidades que registraram o aumento de casos, neuropediatras e obstetras e também com  gerentes regionais de Saúde de Pernambuco para discutir e alinhar as ações de apoio.

Como resposta à situação, a SES/PE elaborou, em parceria com o Ministério da Saúde e com as instituições envolvidas na  resposta a esse evento, o Protocolo com orientações para apoio a investigação clínica e epidemiológica dos casos de microcefalia, com o objetivo de estabelecer critérios para detecção de microcefalia em recém-nascidos do estado de Pernambuco e definir fluxo de atendimento, diagnóstico, vigilância e acompanhamento dos doentes.

Iran Costa Jr. parabenizou a resposta imediata do Ministério da Saúde que acionou o Centro de Operações de Emergência em Saúde (Coes) e enviou para Recife uma Equipe de Resposta Rápida às Emergências em Saúde Pública do Ministério da Saúde, composta seis profissionais epidemiologistas com o objetivo de apoiar a Secretaria de Saúde do Estado e dos municípios nas investigações de campo, além de ter declarado Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional para dar maior agilidade às investigações.

“Nós temos agido com muita responsabilidade. Hoje já existem 800 profissionais treinados e especializados para o atendimento dessas famílias e crianças.  É uma situação muito grave porque se comprovada a sua relação com o zica vírus,  essa epidemia não será restrita apenas ao Nordeste brasileiro, por isso uma ação decisiva precisa ser feita”, alertou o secretário.

Cientes da gravidade do caso, os gestores estaduais de saúde, reunidos em Salvador no Encontro dos Secretários Estaduais de Saúde do Nordeste, no dia 20 de novembro, elaboraram um documento com as necessidades conjuntas dos estados e, entre os destaques, o pleito de que o ministério reconheça que o mosquito Aedes aegypti é, hoje, a principal ameaça à saúde pública do país. (Confira na página 37 o documento na íntegra)

O documento entregue ao ministro da Saúde, Marcelo Castro, conclama ainda maior envolvimento do Estado Brasileiro no enfrentamento desta emergência nacional, com a integração das três esferas governamentais e com a  participação efetiva da sociedade civil, propondo a criação de um Plano de Ação Nacional para Enfrentamento das Arboviroses e de suas complicações que contemple ações integradas e intersetoriais de controle do vetor e a vigilância e organização da linha de cuidado para atenção qualificada aos casos suspeitos.

Também indica, diante da necessidade novos recursos e investimentos, a instituição de um fundo nacional emergencial para ações de combate às arboviroses e controle de suas complicações.

Para o presidente do CONASS, secretário de Estado da Saúde do Rio Grande do Sul, João Gabbardo dos Reis, mesmo sem a certeza da correlação entre o vírus zica e a microcefalia, os gestores não podem perder tempo. “Vamos partir do princípio de que essa relação seja verdadeira e vamos tomar a iniciativa e as medidas necessárias, até porque o combate ao mosquito já deveria ser feito para combatermos a dengue e agora nós temos mais um motivo relevante para intensificar essas ações”.

Ministro da Saúde fala sobre o problema na Assembleia do CONASS

No dia 25 de novembro, o ministro da Saúde, acompanhado do secretário de Vigilância em Saúde (SVS), Antonio Carlos Nardi e do diretor do Departamento de Vigilância Epidemiológica, Cláudio Maierovitch, participou da Assembleia do CONASS. 

Marcelo Castro manifestou total apoio às medidas propostas no documento do CONASS e garantiu que elas vão de encontro ao pensamento do Ministério da Saúde.  

O ministro fez questão de esclarecer que o país vive uma situação inusitada em que não existe na literatura mundial nenhuma referência que relacione a doença ao zica vírus. “Temos de ter prudência na nossa posição. Apesar de os estudos estarem apontando para a existência dessa correlação a nossa responsabilidade é grande, por isso está na hora de compartilharmos as nossas decisões”.

Mesmo sem o diagnóstico preciso, ele afirmou que as ações serão executadas com a hipótese positiva da relação entre o zica vírus e a microcefalia. “Temos discutido com nosso corpo de cientistas e pesquisadores e vamos e tomar decisões que não permitam o aumento da população do Aedes aegypti no verão, como ocorre todos os anos”, disse. 

Apesar de citar algumas tecnologias que estão em desenvolvimento como as vacinas contra dengue, o uso de mosquitos transgênicos ou bactérias que infectem os mosquitos impedindo a transmissão da dengue, o ministro disse que elas ainda levarão tempo para serem colocadas em uso e que, portanto, a estratégia a ser usada pelo Ministério da saúde será aquela já utilizada ao longo do tempo: o combate ao mosquito da dengue por meio da mobilização social. “O que estamos planejando e precisamos pactuar é uma ação mais potente com o envolvimento dos três entes federados e principalmente de todos os meios de comunicação que estiverem à nossa disposição. A população precisa estar mobilizada diante da gravidade desse problema que estamos enfrentando. Só teremos sucesso se a sociedade se mobilizar”, destacou o ministro.

Além da campanha de mobilização social maciça no combate à dengue, Marcelo Castro afirmou que os Agentes de Endemia e os Agentes Comunitários de Saúde irão para as ruas mobilizar as pessoas para eliminar os criadouros.

Outra possibilidade levantada pelo ministro e pactuada com os gestores estaduais foi o uso do Exército Brasileiro no apoio às ações, o que, segundo ele, transmitirá à população a magnitude e a seriedade do caso. Castro comprometeu-se a levar a proposta à presidente Dilma Rousseff, bem como apresentar a ela as novas tecnologias que futuramente poderão ser utilizadas.

Em meio à apreensão e ao estado de alerta que a saúde pública brasileira vive em relação ao aumento dos casos de microcefalia, o ministro da Saúde chamou a atenção para a importância de não se perder o foco no combate ao mosquito Aedes aegypti. “Sabemos que a situação é preocupante, mas nós não podemos perder o foco do combate ao mosquito, pois combatendo-o seremos capazes de diminuir todas essas doenças por ele causadas”, disse.  

Antonio Carlos Nardi, secretário de Vigilância em Saúde, garantiu que o Ministério da Saúde e o Governo Federal estão empenhados em chegar a um diagnóstico conclusivo, a fim de dar uma resposta para a sociedade sem gerar pânico na população.

O secretário informou que dois especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e um pesquisador do Centro de Controle e Prevenção de Doenças de Atlanta/USA, estão a caminho do Brasil para auxiliar com as pesquisas na busca por um diagnóstico final. “Conhecendo a etiologia e com o diagnóstico daremos, de forma interfederativa, a resposta para a população tanto do ponto de vista do diagnóstico, como do ponto de vista assistencial”, assegurou. 

O vice-presidente do CONASS na região Nordeste, Fábio Vilas Boas, parabenizou a maneira como o Ministério está conduzindo as ações em relação à situação. Ações que, segundo ele, também que deveriam ter sido tomadas em relação à dengue, doença a qual disse ter sido sempre negligenciada. “Não basta apenas ações comuns de prevenção, como não deixar água parada etc. Chega de fazer só as mesmas coisas sempre. Temos de pensar diferente e, para isso, é preciso investir muito dinheiro para que os pesquisadores se interessem financeiramente e se dediquem a pesquisar estratégias de combate a esse problema que é a principal ameaça para o país”, alertou. 

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