Cuidados Paliativos: um desafio para a saúde

Aliviar o sofrimento e melhorar a qualidade de vida do paciente e de seus familiares é um dos propósitos da prática ainda pouco difundida no Brasil

Certamente você já ouviu falar de Cuidados Paliativos e talvez os tenha associado àqueles cuidados dados aos pacientes que estão à beira da morte. Este é, segundo o presidente da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), o médico Daniel Forte, o maior equívoco que as pessoas cometem ao se depararem com o assunto. “No Brasil, as pessoas ainda estão com um conceito muito antigo do que são cuidados paliativos e ainda acham que é algo para quem está morrendo”, disse, afirmando em seguida que os cuidados paliativos são basicamente uma competência para cuidar do sofrimento de quem tem uma doença grave.

Para o médico, essa concepção equivocada pode ser o motivo de o Brasil ser tão mal classificado em Cuidados Paliativos, segundo dados publicados pela Organização Mundial de Saúde (OMS). “A OMS fez um levantamento da qualidade desse serviço oferecido no mundo, e o Brasil é classificado apenas com iniciativas isoladas. São poucas as pessoas que os fazem e normalmente elas fazem contra tudo e contra todos, com o apoio de alguns poucos gestores que conseguem enxergar mais longe”, observou Forte.

Mesma opinião tem a geriatra do Hospital Albert Einstein Ana Cláudia Arantes. “Existe um enorme preconceito em relação à prática do cuidado paliativo. As pessoas acreditam que ele se encaixa em um momento em que não há mais nada a se fazer pelo paciente. Essa situação de não ter nada para fazer é tão temida pela família e também pelo médico que está cuidando do paciente que eles acabam não falando sobre isso”, alertou. 

Daniel Forte acredita que, ainda que a política oncológica aborde os cuidados paliativos, falta uma política de saúde voltada para essa questão. Ele afirmou que a ANCP está trabalhando no sentido de construir uma Política de Cuidados Paliativos e observou que o Ministério da Saúde reativou um grupo de trabalho sobre o assunto e que este se reuniu ao longo de todo o ano de 2017.

Questionado sobre como o Ministério da Saúde tem abordado essa questão, o coordenador geral de Atenção Especializada/DAET/SAS/MS, Sandro Martins, ressaltou que a abordagem voltada para aliviar o sofrimento quando a cura não é possível é consagrada na medicina, sendo amplamente aplicada por profissionais, mas observou que a sistematização do cuidado multiprofissional ainda é incipiente.

Ele explicou que a Academia Nacional de Cuidados Paliativos e o Ministério da Saúde têm dialogado no sentido de fundamentar bases técnicas para organização dos serviços que prestam cuidados paliativos no país. “Uma proposta formal deve estar disponível para debate entre gestores públicos, responsáveis últimos pela concretização de políticas de saúde, ainda no 1º semestre de 2018”, afirmou.

O vice-presidente do CONASS na Região Norte, Vitor Manuel Jesus, visitou, em novembro deste ano, uma unidade de Cuidados Continuados e Paliativos em Portugal e explicou que lá a rede foi construída no Sistema Nacional de Saúde (SNS). “Ter isso constituído dessa forma permite consideravelmente diminuir a hospitalização, as internações sociais que acontecem na maior parte dos países e também ter uma melhor integração do paciente com os familiares, já que nessas unidades de cuidados continuados é permitido esse acesso, ou seja, uma abertura de cuidados que passam a ter coparticipação da família e uma nova abordagem junto aos pacientes”, destacou.

Desafios 

Para o presidente da ACNP é preocupante o fato de que as autoridades não tenham ainda dado o devido valor aos cuidados paliativos, uma vez que, em termos de medicina baseada em evidências, os dados comprovam que, além de melhorar a qualidade de vida dos pacientes e suas famílias, os cuidados paliativos reduzem o uso de recursos na saúde. “As evidências mostram que eles agregam valor para o Sistema Único de Saúde, mas infelizmente as autoridades do nosso país ainda não se convenceram em investir em cuidados paliativos para conseguir ter esse retorno de valor para o sistema”, lamentou.

Para o secretário de Estado da Saúde do Distrito Federal e vice-presidente do CONASS na Região Centro-Oestes, Humberto Fonseca, existem uma série de procedimentos que não beneficiam o paciente e as famílias, consequentemente gerando grande custo para a rede de saúde. “Investir em cuidados paliativos não é só algo que faz bem para os pacientes e suas famílias, faz bem para os profissionais que compreendem esse processo da morte que faz parte da vida, mas também têm um impacto muito grande em saúde pública”. 

No Distrito Federal, o Hospital de Apoio tem uma ala inteira especializada em cuidados paliativos com equipe interdisciplinar composta por médicos, enfermeiros, terapeuta ocupacional, nutricionista, psicólogo, fisioterapeuta, técnica de enfermagem, voluntários etc. O secretário explicou ainda que há um programa de residência em medicina paliativa que foi uma das três primeiras do Brasil. “Além de reabrir esta ala no Hospital de Apoio, nós também inserimos os cuidados paliativos geriátricos que avançaram em relação aos cuidados paliativos exclusivamente oncológicos”, comemorou. 

Para o coordenador do DAET/SAS/MS, Sandro Martins, sem dúvida a oferta de cuidados paliativos de modo integrado às linhas de cuidado e programas de saúde é uma necessidade. “Ainda engatinhamos nos esforços, por exemplo, de proporcionar acesso adequado ao controle de dores crônicas, fator dos mais debilitantes e incapacitantes para pessoas doentes”. 

Segundo Martins, a necessidade de serviços especializados em cuidados paliativos, para tratar condições mais complexas e que requerem profissionais com capacitação específica, a abordagem de cuidados paliativos precisa se fazer presente em cada equipe de saúde da família, centro de saúde, consultório especializado ou hospital, em todo o país.

A assessora técnica do CONASS Maria José Evangelista explicou que alguns pontos precisam ser regulamentados, como a Política de acesso e controle de medicamentos analgésicos, a delimitação das funções de cada nível de atendimento (Unidade Básica de Saúde, Hospital e Domicílio) e a formação dos profissionais de saúde.

Sobre uma Política Nacional Norteadora de Cuidados Paliativos, a assessora explicou que ela precisa ser baseada em um tripé que incentive a integração dos cuidados paliativos na estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS); promova a formação dos profissionais de saúde, de voluntários e do público geral; e garanta a disponibilidade dos medicamentos essenciais para o manejo da dor e outros sintomas físicos e psicológicos, em especial os analgésicos opioides.

Já a médica Ana Cláudia Arantes, destacou que a educação é um grande desafio, uma vez que a sociedade, os médicos e os profissionais de saúde precisam ser capacitados para oferecerem melhores condições de saúde para esses pacientes.

Ela também falou sobre os recursos humanos e destacou que para fazer Cuidados Paliativos é necessário, além dos médicos,   uma equipe minimamente qualificada que tenha formação para atender a necessidade do paciente”.

Para o vice-presidente do CONASS na Região Norte e secretário de Estado da Saúde do Pará, Vitor Manuel Jesus, é iminente que o Brasil implante uma política de cuidados paliativos. “Precisamos de um consenso entre CONASS, Conasems e Ministério da Saúde, para a construção de uma política que venha atender essa necessidade, visando principalmente  montar essa rede de cuidados continuados e paliativos que passa consideravelmente a ser uma inovação no que diz respeito à política pública de saúde”, finalizou.  

“Proteger. Esse é o significado de paliar, derivado do latim pallium, termo que nomeia o manto que os cavaleiros usavam para se proteger das tempestades pelos caminhos que percorriam. Proteger alguém é uma forma de cuidado, tendo como objetivo amenizar a dor e o sofrimento, sejam eles de origem física, psicológica, social ou espiritual. Por esse motivo, quando ouvir que você ou alguém que conhece é elegível a cuidados paliativos, não há o que temer”.

Fonte: Academia Nacional de Cuidados Paliativos

Helping hands, care for the elderly concept

Voltar ao Topo