Homenagem: Gilson Carvalho


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Dono de voz aguerrida, mente lúcida, atitudes coerentes e espírito combativo, o médico sanitarista, pediatra e gestor do SUS Gilson Carvalho por muitos anos bancou o seu ideal inquebrantável de dotar o Brasil de um sistema de saúde universal capaz de responder com presteza e qualidade às necessidades de saúde da população.

Com suas respeitáveis “Domingueiras” (leia as Domingueiras inéditas), presenteou-nos por anos com suas análises detalhadas e profundas sobre temáticas relevantes para a compreensão e a defesa intransigente daquilo que tanto amou: o Sistema Único de Saúde.

Trilhando caminhos diversos, passou por postos de direção em diferentes níveis de governo. Especialista em saúde pública, foi secretário municipal de saúde de São José/SP, entre 1988 e 1992. Ocupou também o cargo de secretário nacional de Assistência à Saúde no Ministério da Saúde e foi professor de medicina na Universidade de Taubaté (Unitau).

No entanto, nunca se dobrou à tendência dos discursos oficiais que, por vezes, em nome da ideologia ou da conveniência do poder, oferecem explicações pouco convincentes e justificativas inaceitáveis.

No dia 3 de julho, deixou órfãos uma legião de trabalhadores e admiradores que diariamente exercem o árduo trabalho em busca do fortalecimento do sistema público brasileiro.

O SUS perdeu. O seu legado, no entanto, continuará servindo de exemplo para todos nós.



Meu amigo Gilson Carvalho

Ah, meus amigos, não vos deixeis morrer assim… O ano que passou levou tantos de vós e agora os que restam se puseram mais tristes; pelo bem que me quereis, amigos meus, não vos deixeis morrer.

Vinicius de Moraes

Em menos de dois anos, perdi duas pessoas queridas: Maria Emília e Gilson Carvalho. A primeira, companheira de Gilson; Gilson, meu amigo, compadre e cunhado.

Estivemos juntos nas veredas da saúde pública: constituinte, lei orgânica, NOB 93, financiamento, repasse fundo a fundo, fundação estatal…

Conheci Gilson no fim dos anos 1970, eu, estudante de direito, e ele, médico. Um amigo comum nos apresentou no Rio de Janeiro, onde residíamos.

Nosso primeiro convívio, a amizade; depois, padrinho de minha filha Andrea. Mas quis a vida nos aproximar mais ainda. Mudei-me do Rio para Campinas e me casei com seu irmão Guido Ivan; de compadre, Gilson passou também a ser meu cunhado.

Logo após a nova relação familiar, a vida em seus atalhos imprevistos e inesperados me levou, em afastamento da Procuradoria da Unicamp, a trabalhar na SES em SP. Conheci a saúde pública.

Unidos pelos laços anteriores, o profissional acabou sendo muito intenso e a minha admiração por ele foi crescente, ante a sua integridade, coerência e humanidade que me encantavam. Sua disponibilidade a todos, a qualquer tempo, também era um diferencial.

Gilson talvez tenha sido a pessoa mais coerente que conheci. Ele agia exatamente como pensava. Unia a teoria à prática. Era tão coerente que um dia deixou sua clínica pediátrica em São José dos Campos para trabalhar no serviço público como médico sanitarista. Trocou o conforto, os melhores ganhos privados pelo escasso ganho público. Com a concordância da família, trocou a escola privada de seus filhos pela pública, em razão da necessidade de mudar o padrão de vida ante a escolha feita.

Talvez tenha sido um dos poucos médicos que teve a coragem de empobrecer em nome da causa pública. Deixou cargos públicos; outros recusou, como exemplo o de secretário em Santos na gestão do prefeito David Capistrano.

Certa vez, um amigo, quando ele acabou por recusar ser candidato a prefeito de seu município, disse ser ele uma pessoa irritantemente honesta.

Era humano, ouvinte atento, objetivo em suas análises tanto quanto profundo em seus estudos; discreto em sua vida pessoal; não gostava de disputa por cargos e sempre dizia que o poder nem sempre era usado para tornar realidade as teorias pregadas. Não tinha receio de dizer o que pensava. Inquieto, prático, objetivo, incansável e um provocador irreverente. Ele era o alerta em nossos desvios dos caminhos planejados em razão das acomodações realizadas ou do sabor do poder.

Talvez tenha sido a pessoa, ao lado de Guido Ivan, que mais gostava de trabalhar. Guido tinha horror a uma palavra: férias. Se alguém falasse “vamos tirar férias”, ele se arrepiava porque a coisa que mais gostava era de trabalhar.  Gilson era dessa estirpe. Comungavam da mesma mania: trabalhar, trabalhar, trabalhar… Ambos devotados servidores públicos.

Maria Emília, ao falecer a um ano e meio atrás, levou a alegria do Gilson. Gilson gostava muito de brincar, pregar uma peça, como a vez em que, depois de enfartar dentro do Ministério da Saúde e superados os riscos, fingiu-se de morto quando o Guido foi visitá-lo no hospital em Brasília.

Não queria morrer, dizia-me; há uns quatro meses andava se sentindo muito cansado; seu coração tão grande em humanidades se enfraquecia em batimentos. Dias antes de morrer queria sair da UTI, estava irritado, bravo; pediu para chamarem algumas pessoas que estavam com ele na organização da nova faculdade de medicina de São José dos Campos para uma reunião. Tinha muito que fazer. Não podia ficar ali deitado.

Soube de sua morte no aeroporto em Toulouse ao voltar ao Brasil. Para um Brasil que para mim ficava menor, criando em minha alma grande tristeza e um sentimento de ausência, insubstituível.

Lenir Santos

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