Síndrome Alcoólica Fetal (SAF): uma doença prevalente e subestimada

A Síndrome Alcoólica Fetal (SAF) representa um verdadeiro desafio para os profissionais da área da saúde. Essa síndrome é, atualmente, um dos mais intrigantes problemas de saúde materno-infantil e uma das principais causas de déficit cognitivo-comportamental em crianças. Além de causa de má formação congênita, a SAF também representa séria questão de ordem socioeconômica e de educação. Essa condição clínica de significante prevalência no Brasil decorre do consumo de bebidas alcoólicas durante a gravidez, provocando severas alterações no desenvolvimento fetal, comprometendo diversos órgãos. As crianças afetadas geralmente nascem com baixo peso e baixa estatura (PIG) e microcefalia. As alterações faciais são caracterizadas por: microftalmia, retrognatismo e ausência do sulco nasolabial, configurando um facies peculiar, como pode ser visto na figura abaixo (LIMA, 2008).

Dados Epidemiológicos: incidência e prevalência

Estudos norte-americanos (STREISSGUTH et al., 2001) destacam alguns dados significativos dessa síndrome. A incidência da SAF corresponde a cerca de 2 a 3 casos por 1000 nascimentos vivos, em geral. Em determinadas comunidades, a incidência chega a 10/1000 nascimentos vivos (1%). No Brasil, a falta de conhecimento, a subestimação e a subnotificação dessa condição clínica torna o cálculo da incidência bastante difícil. É importante ressaltar, entretanto, que o elevado padrão de consumo de bebidas alcoólicas em nosso país, entre jovens, principalmente mulheres, pode fazer com que a prevalência de SAF seja alta.

É sabido que o Brasil figura entre os maiores produtores mundiais de bebidas alcoólicas. De acordo com dados da indústria brasileira, somos o terceiro produtor mundial de cerveja – ultrapassando a Alemanha desde 2012 – com mais de 13 bilhões de litros/ano. Em relação aos destilados, ocupamos o primeiro lugar como maior produtor mundial, com cerca de 1,4 bilhão de litros/ano. Nesse sentido, tem-se observado um significativo aumento do consumo, sobretudo, pela população jovem. Com isso, verificou-se que muitas mulheres grávidas consomem bebidas alcoólicas sem o devido conhecimento da ação tóxica do álcool sobre o feto. Em pesquisas realizadas pelo grupo, constatou-se que 22% das gestantes relataram que consumiram álcool durante a gravidez (LIMA et al., 2008).

Se levarmos em consideração que no Brasil há cerca de 3 milhões de mulheres grávidas (MS/Datasus, 2007), pode-se estimar que nasçam por ano 30 mil crianças com SAF leve, moderada ou grave, ou seja, trata-se de 80 casos por dia.

“Se beber, não engravide; se engravidar, não beba” (LIMA, 2008).

Do ponto de vista cognitivo-comportamental, deve-se destacar o comprometimento do desenvolvimento escolar, levando a retardo no processo de aprendizagem, déficit de atenção e distúrbios do comportamento. Outro aspecto importante refere-se à elevada frequência com que crianças e adolescentes com SAF envolvem-se em situações de conflito com a lei.

Em face da magnitude e da complexidade dessa questão de saúde pública, torna-se necessário o estabelecimento de ações e estratégias que visem a assistência integrada dessas crianças e seus familiares. Por outro lado, é de suma importância o desenvolvimento de programas de prevenção baseados na informação, educação e conscientização voltados não só para os profissionais de saúde, como também para os demais profissionais que lidam direta ou indiretamente com essa questão.

Referências

BARR, H. M.; STREISSGUTH, P. Identifying maternal self-reported alcohol use associated with fetal alcohol spectrum disorders. Alcohol Clin. Exp. Res., v. 25, n. 2, 2001.

BRASIL. Ministério da Saúde/Datasus, 2007. 

LIMA, J. M. B. Álcool e gravidez. Síndrome Alcoólica Fetal (SAF). Rio de Janeiro: MedBook, 2008.

LIMA, J. M. B.  et al. Síndrome alcoólica fetal: entidade neurológica comum, porém pouco conhecida. Revista Brasileira de Neurologia, v. 42, n. 3, 2006.

STREISSGUTH, P. et al. A 21-year longitudinal analysis of the effects of prenatal alcohol exposure on young adult drinking. Arch. Gen. Psychiatry, v. 60, 2003.

José Mauro Braz de Lima, Ph.D. – Professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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