
“A Atenção Primária tem um papel fundamental nesse processo. Como ordenadora da rede, ela precisa estar articulada com a regulação, a contratualização e a atenção especializada, para que possamos garantir que o usuário seja encaminhado de forma eficiente e com qualidade. Esse evento nos traz a oportunidade de ouvir e compartilhar experiências para construirmos o SUS que queremos: um sistema em que a APS seja realmente ordenadora do cuidado, mas, principalmente, integrada aos demais pontos de atenção e a todos os componentes da Rede de Atenção à Saúde”
Entre uma pausa e outra da Oficina de Regulação no SUS na Região Sul, o café acabou se tornando extensão natural do encontro, foi quando surgiu essa fala da Sidneya Svierdsovski, gerente de Atenção Primária da secretaria de saúde do Paraná. As xícaras saindo fumaças quentes acompanhavam as conversas dos técnicos da região Sul que, depois de dois dias intensos de debates, aproveitavam o intervalo para compartilhar dúvidas, caminhos e possibilidades sobre como fazer a regulação acontecer, na prática, em cada território e em cada área de atuação.
Ali, longe dos grupos e das apresentações formais, as ideias pareciam circular com mais liberdade. Um comentava sobre os desafios da atenção especializada, outro lembrava das dificuldades da regulação municipal, enquanto alguém rabiscava no papel possíveis fluxos e soluções. Cada profissional enxergava a política pública a partir do lugar que ocupa dentro da secretaria, e justamente por isso as conversas iam se completando, peça por peça, como um desenho coletivo do Sistema Único de Saúde (SUS) possível.
Entre uma dinâmica e outra, as pequenas rodas de conversa nos corredores,as pessoas ia comentando suas propostas e inquietações. Era quase automático, terminava uma atividade, começava outra sessão improvisada de trocas sinceras sobre os desafios da regulação em saúde no Brasil.
E talvez seja justamente isso a nova Política Nacional de Regulação, um grande exercício coletivo de construção. Um instrumento de gestão pensado para organizar o acesso aos serviços de saúde, consultas, exames, cirurgias, de forma mais equânime, integral e oportuna, priorizando quem mais precisa e tentando diminuir distâncias históricas dentro do SUS.
Mas, na prática, cada estado carrega sua própria geografia, seus vazios assistenciais, suas listas, seus fluxos e suas urgências. Não existe fórmula pronta. Não existe certo ou errado. Existem técnicos, gestores e profissionais tentando, juntos, encaixar uma política complexa dentro das diferentes realidades estaduais.
Foi por esse pensamento que a fala do gerente de Regulação Ambulatorial da Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina, Clemilson de Sousa, resumiu muito do sentimento compartilhado durante o encontro dizendo que a nova política nacional de regulação traz profundas mudanças, sobretudo na relação entre os diferentes níveis de atenção da saúde pública, desde a atenção primária até a atenção especializada.
No fundo, talvez a maior riqueza desses encontros esteja justamente nisso: perceber que nenhum estado enfrenta seus desafios sozinho. Em cada intervalo, em cada conversa atravessada por experiências diferentes, surgia uma certeza silenciosa, a de que regular o acesso à saúde é também aprender, constantemente, a construir caminhos coletivos.
Ainda hoje a lembrança daqueles dois dias permanece viva na memória de quem esteve ali. Não apenas pelas palestras, pelos slides ou pelas palavras técnicas que atravessavam o auditório, mas pelo raro instante em que profissionais acostumados à urgência cotidiana puderam parar para pensar o futuro da saúde pública brasileira.
E talvez esse seja um dos nossos grandes desafios enquanto País: transformar o hábito de novas políticas em ferramenta cotidiana de formação, reflexão e transformação. Não apenas ler relatórios ou portarias, mas ler o mundo, ouvir experiências e permitir que o conhecimento circule entre diferentes vozes e territórios.
E quem traduziu bem esse sentimento foi Tiago Reis, chefe da Divisão de Regulação Ambulatorial do Estado do Rio Grande do Sul. Ao comentar sobre o evento, ele destacou não apenas a importância do conteúdo, mas a forma como tudo foi organizado.
Os módulos, divididos em eixos de ação, permitiram compreender a regulação para além das filas e sistemas. Segundo ele, falou-se sobre governança, regionalização, planejamento e o papel dos diferentes pontos de atenção da rede. Além disso, ele comentou que em outro momento, surgiam discussões sobre contratualização baseada em valor, uma mudança silenciosa, mas profunda, que propõe olhar menos para números frios e mais para o cuidado efetivamente entregue às pessoas.
E então vinham os temas que fazem qualquer gestor suspirar fundo: interoperabilidade dos sistemas, transporte sanitário, complexos reguladores, nós críticos que insistem em permanecer. Assuntos densos, técnicos, por vezes áridos. Mas havia algo diferente naquele ambiente. Talvez porque ninguém estivesse ali apenas para cumprir tabela. Havia troca.
Tiago mencionava com entusiasmo as conversas com profissionais do Paraná e de Santa Catarina. E era curioso perceber como, em um País tão grande, os problemas se repetem, mas as soluções também começam a se encontrar. Em cada intervalo, pequenos grupos se formavam quase naturalmente. Uns falavam sobre experiências exitosas; outros compartilhavam dificuldades que raramente cabiam nos documentos oficiais.
Ao final, ficou a sensação de que aqueles dois dias tinham aberto portas. Novas perspectivas sobre a regulação, novas ideias, novas leituras — e talvez isso seja o mais importante. Porque encontros assim não transformam a realidade de maneira imediata. Mas plantam perguntas. E toda mudança relevante na saúde pública começa exatamente assim: quando alguém volta para casa pensando diferente do que pensava antes.
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Luiza Tiné/Ascom Conass