A obesidade avança em ritmo acelerado no Brasil e já acende um alerta para a saúde pública. Em menos de duas décadas, o número de adultos brasileiros com obesidade cresceu 118%, passando de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024, segundo dados da pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) 2025, divulgada pelo Ministério da Saúde.
O levantamento também mostra o crescimento expressivo de outras doenças crônicas no mesmo período, como diabetes (135%), excesso de peso (47%) e hipertensão arterial (31%). Os dados revelam um cenário preocupante e reforçam a necessidade de ampliar políticas públicas voltadas à promoção da saúde, prevenção de doenças e incentivo a hábitos saudáveis, como alimentação equilibrada e prática regular de atividades físicas.
O tema foi debatido hoje (15), durante o Diálogos Conass, realizado na sede do Conass. O encontro reuniu especialistas, gestores e representantes de instituições de saúde para discutir estratégias de enfrentamento da obesidade e das doenças crônicas no país.
Para o secretário executivo do Conass, Jurandi Frutuoso, o Diálogos Conass se consolidou como um espaço estratégico para aprofundar discussões sobre temas prioritários da saúde pública brasileira e construir encaminhamentos concretos para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). “O avanço dessas condições crônicas representa um desafio importante para o SUS, especialmente diante do impacto na qualidade de vida da população e na crescente demanda por serviços de saúde”, afirmou.
Jurandi destacou ainda que o debate sobre obesidade exige uma abordagem ampla e integrada, envolvendo prevenção, assistência, organização da rede de atenção e atualização das políticas públicas voltadas ao tema. Ele citou um debate promovido pelo colegiado sobre câncer, que contribuiu para a pactuação de quatro portarias junto ao Ministério da Saúde.
Jurandi chamou a atenção para os dados apresentados sobre obesidade no Brasil, classificando o cenário como preocupante e ressaltou a desigualdade no acesso às cirurgias bariátricas entre os sistemas público e privado. “Enquanto a rede privada realizou pouco mais de 100 mil procedimentos em 2024 e 2025, o SUS respondeu por apenas um décimo desse total”, comentou sobre os dados do Vigitel.
Para Frutuoso, o debate sobre obesidade é urgente por sua relação direta com outras doenças crônicas que impactam fortemente a saúde pública brasileira, como diabetes, hipertensão e infarto. Ele lembrou ainda que cerca de 20 milhões de brasileiros convivem atualmente com diabetes.
Outro ponto destacado foi a necessidade de atualização da política nacional de obesidade, cuja portaria vigente foi criada em 2013. Segundo ele, as transformações ocorridas nos processos de gestão, atenção à saúde e programas estratégicos ao longo dos últimos anos reforçam a necessidade de revisão e modernização das políticas públicas voltadas ao tema.

O presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), Juliano Canavarros, defendeu durante o debate que a obesidade precisa ser tratada como uma doença crônica e multifatorial, e não como uma simples questão de escolha individual. “A obesidade é uma doença de causa multifatorial e crônica. Não podemos tratar essa condição apenas como uma escolha individual do paciente”, afirmou.
Juliano chamou atenção para o vazio assistencial existente no País e para a desigualdade no acesso ao tratamento cirúrgico da obesidade pelo SUS. Segundo estudo apresentado pela SBCBM, com base em dados públicos, a taxa de realização de cirurgia bariátrica nas capitais e no Distrito Federal corresponde a cerca de 1% dos pacientes potencialmente elegíveis para o procedimento. “O que vemos hoje é um grande vazio assistencial. Temos milhares de pacientes elegíveis para cirurgia bariátrica e uma capacidade muito pequena de resposta no SUS”, afirmou.
O presidente destacou ainda que algumas capitais sequer possuem programas estruturados de atenção aos pacientes com obesidade grave. “Existem capitais brasileiras que não têm nenhum programa organizado para atender pacientes com obesidade grave. Isso evidencia uma desigualdade regional muito importante no acesso ao tratamento”, ressaltou.
Daniela Moreira, coordenadora de Atenção às Condições Crônicas na Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, destacou a necessidade de atualização das diretrizes da política de obesidade, vigentes desde 2013. Segundo ela, o atual cenário exige inovação e construção de políticas públicas mais conectadas às necessidades da população. “Esse é um momento importante para inovar e pensar em políticas que façam sentido para as pessoas”, afirmou.
A coordenadora ressaltou ainda que a obesidade é uma condição complexa, que demanda uma abordagem ampla e articulada entre diferentes setores. “O enfrentamento do problema não deve se restringir apenas à área da saúde, mas envolver também temas como segurança alimentar, promoção da alimentação saudável e prevenção de doenças crônicas”, falou.
Daniela reforçou ainda que a obesidade é um fator de risco para diversas outras condições de saúde, como diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares, o que amplia a necessidade de estratégias integradas e ações em rede dentro do SUS.
O técnico do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), Rodrigo Lacerda, também falou da relevância do debate sobre obesidade e doenças crônicas no Brasil. Segundo ele, o Conasems acompanha com preocupação o avanço dessas condições e os impactos sobre o SUS. “É importante fortalecer ações integradas de prevenção, cuidado e organização da rede de atenção à saúde para enfrentar o crescimento das doenças crônicas, especialmente nos municípios, onde grande parte da assistência à população é realizada”, enfatizou.
Diagnóstico da Obesidade no Brasil
O cirurgião do aparelho digestivo e representante da SBCBM, Luiz Moura, reforçou a importância da criação dos Centros de Tratamento da Obesidade como estratégia para organizar a assistência e reduzir o tempo de espera por atendimento no SUS.
Para ele, a ausência de integração entre os serviços acaba dificultando o acesso dos pacientes ao tratamento. “Muitos pacientes são tratados apenas como diabéticos ou hipertensos, quando, na verdade, a obesidade é a protagonista dessas doenças associadas”, destacou.
O especialista também comentou da necessidade de ampliar o reconhecimento da obesidade como causa de morte e não apenas como condição associada em prontuários e atestados de óbito. “Precisamos incluir a obesidade nos atestados de óbito para demonstrar que ela não é apenas uma doença associada, mas muitas vezes a principal causa do agravamento clínico dos pacientes”, disse.
Já o ex-presidente da SBCBM, Fábio Viegas, enfatizou que a obesidade deve ser compreendida como uma doença hormonal e neuroendócrina, afastando a ideia de que a condição esteja relacionada apenas a hábitos alimentares inadequados ou falta de disciplina. “A obesidade é uma doença hormonal, provocada por alterações neuroendócrinas. Não é preguiça, não é falta de vontade e não pode ser tratada apenas como erro alimentar”, afirmou.
As discussões realizadas durante o encontro reforçaram a necessidade de atualização das políticas públicas voltadas ao enfrentamento da obesidade no Brasil, com foco na ampliação do acesso ao cuidado, fortalecimento da atenção em rede e redução das desigualdades regionais.
Os participantes também destacaram a importância de reconhecer a obesidade como uma doença crônica complexa e multifatorial, que exige respostas estruturadas e sustentáveis do sistema público de saúde.
Jurandi Frutuoso destacou que o evento oportunizou conhecer as propostas de instituições e especialistas e que os técnicos do Conass irão debater as oportunidades apresentadas. “Agradeço aos convidados, especialmente porque não trouxeram apenas o problema, mas apontaram caminhos para avançarmos nas discussões e no planejamento sobre o tema”, afirmou.
A Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) apresentou ao Conass, Conasems e Ministério da Saúde, uma iniciativa para o enfrentamento à obesidade no Brasil. 🇧🇷
O presidente da SBCBM, Juliano Canavarros , e representantes da instituição estiveram hoje, na… pic.twitter.com/S7z7glKyjm
— CONASS (@ConassOficial) May 15, 2026
Assessoria de Comunicação do Conass