Há algum tempo venho ouvindo falar da implementação da nova Política Nacional de Regulação no SUS. No começo, confesso, parecia mais uma dessas pautas técnicas que circulam pelos corredores do Conass, pelas palestras nos eventos afora e pelas apresentações de PowerPoint. Mas bastou acompanhar de perto uma oficina, ouvir uma fala atravessada de cansaço e esperança, observar gente que acredita no que faz, para entender que a regulação não é apenas um mecanismo burocrático. É, na verdade, uma tentativa diária de organizar o cuidado humano em meio ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Vejo minha colega de trabalho, Luciana Toledo, fazendo várias reuniões como quem costura retalhos de um tecido enorme. Cada encontro parece carregar a urgência de fazer dar certo. Os técnicos chegam com agendas apertadas, celulares tocando sem parar, voos atrasados, olhares cansados. Ainda assim, sentam-se ao redor de mesas para discutir fluxos, pactuações, indicadores, regionalização, acesso. Palavras que, para muita gente, soam frias. Mas que ali ganham rosto, voz e território.
Entre uma sala e outra, escuto sobre como a regionalização da saúde é um dos principais caminhos para fortalecer a regulação no SUS. Um estado conta que vem conseguindo estruturar uma rede capaz de reduzir deslocamentos e aproximar o cuidado da população. Outro reforça que, quando a rede se organiza regionalmente, a regulação deixa de ser apenas controle de fila e passa a ser garantia de acesso digno. O cidadão consegue atendimento mais perto de casa, no tempo certo, dentro da sua região de saúde.
E, enquanto ouço tudo isso, percebo que existe uma certa delicadeza escondida nessas discussões técnicas. Porque ninguém fala apenas de sistemas. Fala-se de pessoas que esperam uma consulta, de mães que atravessam quilômetros em busca de atendimento, de idosos que precisam repetir exames porque a informação não circula como deveria. No fundo, regular também é cuidar.
Em Fortaleza, durante a oficina promovida pelo Conass da região Nordeste, um gestor dizia que aquele espaço era importante justamente por reunir as três dimensões da regulação, do sistema, do acesso e do cuidado, envolvendo diferentes áreas na construção coletiva da saúde pública. Outra participante destacou como a troca entre os estados nordestinos fortalecia a implementação da política em cada território. E havia verdade naquilo. Porque o SUS talvez seja isso: um Brasil inteiro tentando fazer um sistema acontecer junto.
Outro técnico comentou que o ponto principal de toda aquela discussão era o usuário do SUS. Que a meta era garantir acesso no tempo certo, no lugar certo e com qualidade. Parece simples quando dito assim. Mas há algo profundamente revolucionário em defender que alguém que tem acesso restrito, do interior ou de uma comunidade distante tenha direito ao mesmo cuidado que qualquer outra pessoa.
Uma representante do Piauí trouxe uma reflexão que ficou ecoando em mim. Disse que a oficina abriu a mente das áreas técnicas para perceber que regulação não se resume ao acesso. Que ela envolve contratualização, atenção primária, setor jurídico, pactuação de metas, indicadores de cuidado e valor agregado ao tratamento. Ou seja, envolve enxergar o sistema de forma inteira. E talvez esse seja um dos maiores desafios do nosso tempo, parar de olhar as partes isoladas e voltar a compreender o todo.
No fim das contas, percebo que tudo está relacionado ao tempo. O tempo que usamos para pensar políticas públicas. O tempo que uma pessoa espera por atendimento. O tempo necessário para amadurecer mudanças. O tempo das decisões que tomamos e também das escolhas feitas pelos outros ao nosso redor.
Mudamos de cidade, de rotina, de opinião. Aprendemos novas formas de existir. Às vezes deixamos de acreditar em algo, outras vezes encontramos uma nova crença, uma nova filosofia, outro jeito de olhar a vida. Com as políticas públicas talvez aconteça o mesmo. Elas também amadurecem, tropeçam, reaprendem.
E, observando essas oficinas, os profissionais trocando experiências entre estados, percebi que o SUS não é feito apenas de estruturas gigantescas ou normas ministeriais. Ele é feito, sobretudo, de gente que insiste. Gente que passa horas debatendo ações porque acredita que alguém merece ser atendido melhor. Gente que ainda acredita que organizar o cuidado pode mudar vidas.
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Luiza Tiné
Assessoria de Comunicação do Conass