Oficina de Regulação Sudeste: Quando diferentes vozes constroem caminhos para a regulação no SUS 

São Paulo amanheceu fria. O termômetro marcava 8 graus, mas a cidade parecia não se importar. Continuava em movimento, como sempre. O céu cinza se espalhava entre os prédios, enquanto ambulâncias cortavam o trânsito com suas sirenes, máquinas trabalhavam sem pausa e pessoas caminhavam apressadas pelas calçadas. Em São Paulo, até o frio parece ter pressa.

No meio dessa paisagem urbana tão característica, chegamos a um prédio comum. Nada nele anunciava o que aconteceria lá dentro. Mas bastava atravessar a porta para encontrar outro cenário: salas modernas, confortáveis, mesas organizadas e pessoas já acomodadas, trocando olhares curiosos e expectativas silenciosas. Havia no ar aquela sensação que antecede os encontros importantes, como se todos se perguntassem, ao mesmo tempo: o que será que vem por aí?

A concentração tomou conta do ambiente. As apresentações começaram e, logo depois, os grupos se formaram. Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo e Rio de Janeiro estiveram por alguns momentos separados. Assim teve início a Oficina de Regulação do SUS da Região Sudeste.

Ao longo dos dois dias, as discussões mostraram que a regulação vai muito além das filas, das vagas ou dos sistemas. Falou-se sobre Redes de Atenção à Saúde, planejamento, integração e, principalmente, sobre pessoas. Sobre a necessidade de conectar áreas que, muitas vezes, trabalham com os mesmos objetivos, mas nem sempre encontram tempo para conversar.

Uma participante resumiu bem esse sentimento ao dizer que a oficina abriu janelas. Janelas para diálogos que o cotidiano acelerado das secretarias nem sempre permite. Janelas para refletir sobre temas conhecidos sob novas perspectivas. Janelas para enxergar possibilidades onde antes havia apenas rotina.

E talvez esse tenha sido um dos aspectos mais marcantes do encontro: a oportunidade de ouvir. Ouvir colegas de outros estados. Descobrir que os desafios são parecidos. Perceber que algumas soluções já estão sendo construídas em outros lugares. Entender que ninguém enfrenta sozinho os desafios de fazer o Sistema Único de Saúde (SUS) funcionar todos os dias.

Outro aprendizado surgiu de uma surpresa compartilhada por muitos. Quem chegou esperando encontrar a regulação no centro exclusivo dos debates descobriu algo maior: a Atenção Primária à Saúde ocupava papel central nas discussões. E fazia sentido. Afinal, regular o acesso também significa organizar o cuidado, fortalecer os vínculos e construir caminhos mais coordenados para a população.

Nos grupos estavam representantes da atenção primária, da atenção hospitalar, das áreas especializadas, do jurídico e da gestão. Profissionais de diferentes formações e responsabilidades reunidos em torno de um objetivo comum. Planejar e construir  juntos uma regulação melhor, mais eficiente e robusta. 

Nesse contexto, Minas Gerais foi lembrado pela sua política de Transporte Sanitário, frequentemente citada pelos participantes como exemplo de organização e apoio ao acesso dos usuários. Em tom descontraído, uma brincadeira arrancou risos de todos: “Não vamos falar de transporte sanitário na frente de Minas Gerais, que tem até jet ski, frota de avião e tudo mais”. O comentário bem-humorado ajudou a ilustrar o reconhecimento do protagonismo mineiro nessa área e reforçou um dos objetivos centrais do encontro: aprender com as experiências exitosas dos estados.

Ao final, o que cada participante levará de volta para seu estado vai muito além de relatórios, diagnósticos ou planos de ação. Levará novas perguntas, novas ideias e a certeza de que a integração é um dos caminhos mais potentes para fortalecer a regulação e qualificar o acesso à saúde.

Quando o segundo dia chegou ao fim, São Paulo continuava fria e cinza do lado de fora. Mas dentro da sala havia algo diferente. Havia a sensação de construção coletiva, de troca genuína e de propósito compartilhado.

Talvez seja isso que fica de uma oficina como essa: a lembrança de que, por trás de políticas, fluxos e sistemas, existem pessoas pensando juntas em como fazer o SUS chegar melhor a quem mais precisa. E que, quando diferentes vozes se encontram para construir soluções comuns, o resultado é sempre maior do que a soma das partes.

Luiza Tiné

Assessoria de Comunicação do Conass