Oficina de Regulação Norte II – Os caminhos de um SUS feito por gente

Foram meses de voos, encontros, malas prontas, apresentações, muitas conversas e uma certeza que foi ficando cada vez mais forte: o Sistema Único de Saúde (SUS) é feito por gente. Gente que acredita, que trabalha muito, que enfrenta dificuldades enormes e que, mesmo assim, continua encontrando motivos para fazer acontecer.

Encerramos um ciclo de oficinas de regulação do SUS que passou por diferentes regiões do Brasil – Cuiabá, Florianópolis, Fortaleza, João Pessoa, São Paulo, Belém e, por último, Palmas. E eu queria começar falando por mim.

Tive a sorte de caminhar ao lado de pessoas muito competentes e generosas, que me acolheram inclusive no meu auge do nervosismo durante a apresentação. Foram encontros em que pude ouvir, trocar, aprender e, principalmente, reafirmar uma paixão que já mora em mim há algum tempo: o SUS.

Em cada oficina, vi um SUS sendo construído por pessoas que acreditam nele. Vi brilho nos olhos quando o assunto era saúde pública. Vi técnicos compartilhando experiências, gestores fazendo perguntas, equipes reconhecendo dificuldades e, principalmente, gente pensando em como fazer melhor.

E foi impossível não perceber que regulação é muito mais do que acesso. É planejamento. É organização. É envolver diferentes áreas. É conversar com a rede. É ter um olhar sensível para as necessidades do usuário. É comunicar bem. É produzir e usar dados. É entender o território. É fazer escolhas diante de realidades tão diferentes. E é, todos os dias, ajudar a construir um SUS mais organizado, transparente e capaz de responder às necessidades de quem precisa dele.

E aí chegamos à última oficina: Palmas

O encontro reuniu Acre, Rondônia, Roraima e Tocantins. E, talvez por ser a despedida desse ciclo, ficou ainda mais evidente o quanto esses encontros ultrapassaram o conteúdo técnico.

Roraima, resumiu o sentimento de quem chega para aprender e sai querendo fazer. Ali eles contaram que já haviam lido sobre a nova política de regulação, mas que a oficina ajudou a “clarear ideias”. Fizeram anotações, tiraram dúvidas, ouviram experiências e já voltaram para Roraima pensando no que poderia implementar.

Quando perguntamos qual era o sentimento depois daqueles dois dias, poderiam ter respondido “gratidão”. Mas escolheram outra palavra: empolgação. E talvez não exista palavra melhor para encerrar uma oficina.

Empolgação para voltar para casa. Para compartilhar o que aprendeu. Para tentar fazer diferente. Para colocar em prática.

Foi como Rondônia, também destacou algo que muitas vezes parece simples, mas é fundamental: a integração.

Para aquela equipe, estar na oficina permitiu reunir diferentes áreas técnicas que, na rotina, nem sempre conseguem trabalhar tão próximas. E, quando foi falado de regulação, essa integração deixou de ser detalhe e passou a ser essencial. Porque não existe regulação isolada.

Tocantins, trouxe justamente essa reflexão. Depois dos dois dias, ficou ainda mais claro para ela que a regulação não cabe em uma única “caixinha”. Ela envolve toda a rede. E talvez essa tenha sido uma das grandes aprendizagens desse ciclo: regular é conversar.

Conversar com a gestão, com a assistência, com a atenção primária, com a média e alta complexidade, com os profissionais, com os territórios e, principalmente, lembrar que, no final de todos esses fluxos, sistemas e planilhas, existe uma pessoa esperando cuidado.

Acre, quando chegou a Palmas, não imaginava exatamente o tamanho da proposta. Encontrou uma metodologia prática, explicativa e, sobretudo, uma oportunidade de pensar a regulação de forma integrada. Saiu com mais conhecimento, com ainda mais vontade de “fazer um SUS diferente”.

E é bonito perceber que, depois de tantos quilômetros percorridos, tantas apresentações e tantos módulos, a palavra que aparece novamente é essa: vontade.

Vontade de organizar a rede.
Vontade de melhorar os fluxos.
Vontade de qualificar o acesso.
Vontade de comunicar melhor.
Vontade de usar os dados a favor da gestão.
Vontade de fazer o SUS acontecer.

E nossa despedida não poderia ter sido melhor.

Teve pôr do sol.
Teve restaurante e um belo presente para a nossa “Poliana” da turma, uma companheira de todos os momentos e, sem dúvida, merecedora de muitos presentes nessa vida.
Teve caminhada.
Teve comida boa.
Teve boas risadas sobre o grande show de Palmas naquele fim de semana. 

Teve até elogio de quem, pela sensibilidade musical, pela experiência como professor e pelo bom entendimento do SUS, conseguiu enxergar ritmo naquilo tudo e dizer que uma nova obra estava sendo construída. A obra se chamava oficina. 

E talvez seja exatamente isso. Uma oficina é um lugar onde as coisas são construídas. Onde se testa, se conserta, se adapta, se aprende. Onde ninguém chega com tudo pronto. Foi assim com a regulação.

Voltamos para casa carregando muito mais do que apresentações e materiais. Levamos perguntas, ideias, histórias, contatos, risadas e a certeza de que fazer regulação em um país continental, diverso e cheio de desigualdades exige muito mais do que uma política bem escrita. Exige escuta. Exige diálogo. Exige planejamento. Exige coragem para mudar. E exige gente, como disse Rita.

Gente como todos que passaram pelas oficinas e tantas outras pessoas que encontramos pelo caminho.

No fim, talvez a maior lembrança dessas oficinas não esteja em um slide ou em uma anotação. Está nas conversas de corredor, nas dúvidas compartilhadas, nas experiências contadas, nas gargalhadas depois de um dia intenso e naquele sentimento bonito de que, apesar de todos os desafios, vale a pena acreditar no SUS.

Voltamos com muita terapia e plantas. Muitas reflexões e uma mala cheia de histórias. E seguimos. Porque o SUS não para. E a regulação também não.

Luiza Tiné

Assessoria de Comunicação do Conass