A abertura da 6ª Assembleia do Conass em 2026, que aconteceu hoje (24), foi marcada pelo lançamento de livros que convidam à reflexão sobre desafios que ultrapassam fronteiras e impactam diretamente a vida de milhões de pessoas. A primeira publicação apresentada foi o livro “A insegurança alimentar no universo da CPLP”, 15º volume da série Linha Editorial Internacional de Apoio aos Sistemas de Saúde (Leiass), fruto de uma parceria entre o Conass e o Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa (IHMT).
Em um mundo onde a fome e a insegurança alimentar permanecem entre os maiores desafios do século XXI, a obra reúne estudos e experiências dos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), lançando luz sobre questões como mudanças climáticas, governança pública, desigualdades sociais, transição nutricional e o direito humano à alimentação adequada.
O secretário estadual de saúde do Paraná e vice-presidente do Conass para a região Sul, César Neves, que presidiu a assembleia, destacou que o tema da insegurança alimentar exige um olhar que ultrapassa os limites da saúde pública. “O livro nos traz uma reflexão que vai muito além da saúde pública, alcançando a assistência social e diversas outras áreas. Quando tratamos desse tema tão doloroso que é a fome, somos chamados a refletir sobre a responsabilidade coletiva de enfrentá-lo”, afirmou.

O coordenador técnico-adjunto e assessor para Relações Internacionais do Conass, Fernando Cupertino, ressaltou a estreita relação entre a segurança alimentar e a promoção da saúde. Segundo ele, os impactos da alimentação inadequada já representam um dos grandes desafios para os sistemas de saúde em todo o mundo. “Este é um tema que desperta grande preocupação e está diretamente ligado à promoção da saúde. Os sistemas de saúde enfrentarão tempos difíceis se não conseguirmos avançar nos aspectos relacionados à prevenção e ao enfrentamento das doenças associadas à alimentação e à nutrição”, observou.
Para Cupertino, combater a fome e promover a segurança alimentar não é apenas uma questão de assistência social, mas uma estratégia essencial para a redução das desigualdades, a promoção da saúde e a construção de sociedades mais justas e sustentáveis.
O segundo lançamento trouxe à memória um dos períodos mais desafiadores da história recente do País. O ex-secretário de saúde de Mato Grosso, Gilberto Figueiredo, apresentou o livro Sem tempo pra respirar, obra que revisita os bastidores da pandemia de Covid-19 e homenageia aqueles que estiveram na linha de frente do enfrentamento à crise sanitária.

Figueiredo afirmou que não haveria lugar mais apropriado para o lançamento do que a Assembleia do Conass, espaço onde compartilhou desafios, decisões e aprendizados com outros gestores estaduais. “Sempre é muito bom estar aqui. Tive a oportunidade de conviver com esses secretários e aprender muito com esta reunião. Não poderia ser diferente para lançar este livro, tinha que ser aqui”, declarou.
Ao recordar os anos da pandemia, o ex-secretário destacou as profundas transformações provocadas pela crise, tanto na esfera profissional quanto na pessoal. “A pandemia transformou a minha vida e a de muitas pessoas. Depois que passou a tormenta, entendi ainda mais a importância do Sistema Único de Saúde (SUS). Mas parece que ainda não fizemos toda a lição de casa”, refletiu.
Figueiredo relembrou os esforços realizados por Mato Grosso para reorganizar a rede de saúde pouco antes da chegada da pandemia e destacou que, diante da emergência, todos os esforços foram direcionados para salvar vidas. Para ele, a experiência deixou lições importantes, especialmente sobre a necessidade de o Brasil ampliar sua autonomia na produção de insumos e equipamentos estratégicos para a saúde. “O Brasil precisa ter mais independência industrial e capacidade de produzir insumos estratégicos. Se não discutirmos e planejarmos esses temas, poderemos enfrentar novamente situações semelhantes”, alertou.
Segundo o autor, a obra também é uma homenagem aos profissionais de saúde, aos gestores e às instituições que estiveram à frente das decisões mais difíceis daquele período. Figueiredo destacou a atuação conjunta do Conass e do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde, além do papel exercido pelos secretários estaduais. “A união fez a diferença. Na ausência do governo [Federal] naquele momento, foi essa capacidade de aliança que nos permitiu evitar mais mortes. Se não tivéssemos a união que existe neste Conselho, não teríamos conseguido enfrentar aquele período da forma como enfrentamos”, afirmou.
O secretário executivo do Conass, Jurandi Frutuoso, ressaltou a importância de registrar e compartilhar as experiências vividas durante a pandemia para fortalecer a memória institucional do SUS e preparar futuras gerações de gestores. “A pandemia marcou profundamente o nosso País. E, se não tomarmos atitudes diferentes, corremos o risco de repetir os mesmos erros. É preciso responsabilidade quando tratamos de um tema tão sério. Todos que viveram essa experiência deveriam registrá-la. Colocar no papel o que foi vivido, os desafios enfrentados e os resultados alcançados ajuda a fortalecer a compreensão sobre o papel de cada instituição e contribui para minimizar sofrimentos e perdas no futuro”, destacou.
César fez uma reflexão sobre os aprendizados deixados pela pandemia. Para ele, apesar das duras lições impostas pela crise sanitária, a sociedade ainda tem um longo caminho a percorrer. “Eu esperava que o ser humano saísse desse período menos egoísta, mais solidário e disposto a valorizar o que realmente importa. Acho que evoluímos menos do que poderíamos. Ainda temos muito a aprender e espero que possamos desenvolver essa consciência daqui para frente”, concluiu.
Saúde Mental na Atenção Primária à Saúde
Os secretários estaduais viram os avanços da Planificação da Atenção à Saúde na implementação da linha de cuidado em Saúde Mental na Atenção Primária à Saúde (APS). A Planificação visa qualificar os processos de trabalho das unidades de saúde, promovendo a integração entre a Atenção Primária e a Atenção Especializada. A proposta é superar modelos fragmentados de atendimento e construir redes mais organizadas, capazes de acompanhar o usuário ao longo de toda a sua trajetória de cuidado.
A assessora técnica do Conass e coordenadora da Planificação, Maria José Evangelista, destacou que a pandemia de Covid-19 evidenciou e agravou os problemas relacionados à saúde mental, reforçando a necessidade de incorporar o tema de forma estruturada às políticas públicas. “Durante a pandemia, essa situação foi agravada e a APS teve um papel muito importante nesse contexto. Era um tema que ainda não havia sido trabalhado de forma integrada à Planificação. Hoje entendemos que a saúde mental não deve ser um projeto separado da APS, mas parte da organização da rede de atenção”, explicou.
Representando o Hospital Israelita Albert Einstein, parceiro do Conass no desenvolvimento do PlanificaSUS, por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), do Ministério da Saúde, o gerente de projetos Márcio Paresque lembrou que a saúde mental já figurava entre as linhas prioritárias discutidas desde 2018. “Compreendemos que a organização de qualquer linha de cuidado precisa ter a atenção primária como coordenadora e ordenadora do cuidado. Por isso, escolhemos iniciar a construção da linha de saúde mental a partir da APS. Os resultados que temos observado demonstram a importância dessa estratégia para a integração da rede”, afirmou.
A analista de Práticas Assistenciais em Saúde Mental da área de Programas Governamentais do Hospital Israelita Albert Einstein, Ana Alice Freire, ressaltou a complexidade do tema e a necessidade de apoiar estados e municípios na construção de uma linha de cuidado integrada. “A discussão sobre saúde mental é ampla e estamos nos debruçando sobre ela há algum tempo. Nosso objetivo é apoiar secretarias estaduais e municipais para que a atenção primária possa estruturar uma linha de cuidado integrada e capaz de responder aos desafios que já existiam antes mesmo da pandemia”, disse.
A experiência do Paraná foi apresentada como exemplo dos avanços alcançados com a metodologia da Planificação. A diretora de Atenção e Vigilância em Saúde da Secretaria de Estado da Saúde do Paraná, Maria Goretti Lopes, explicou que o estado iniciou o PlanificaSUS em 2019 e, a partir de 2021, ampliou a estratégia para todas as regiões paranaenses, incluindo a linha de cuidado em saúde mental.
Segundo ela, a Planificação é um processo contínuo de educação permanente que busca qualificar profissionais, organizar serviços e fortalecer a Rede de Atenção à Saúde. “A Planificação não tem data para terminar. Estamos sempre atualizando processos, investindo na qualificação dos profissionais e organizando a atenção à saúde. O que queremos é integrar a atenção primária e a especializada, garantindo a continuidade do cuidado e um acompanhamento compartilhado capaz de atender às necessidades das pessoas, especialmente na área da saúde mental”, afirmou.
São Julião – o primeiro hospital lixo zero da América Latina
Apresentada pelo secretário de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul, Maurício Simões, a iniciativa desenvolvida no Hospital São Julião chamou a atenção dos gestores ao mostrar que mudanças significativas podem nascer da combinação entre compromisso institucional, educação permanente e engajamento das equipes.
A história da unidade, no entanto, começa muito antes dos atuais resultados. Fundado em 1941, durante o governo de Getúlio Vargas, como uma colônia destinada ao atendimento de pessoas acometidas pela hanseníase, o hospital atravessou décadas de desafios e períodos de abandono. Sua trajetória começou a mudar com a chegada da missionária italiana Irmã Silvia, que dedicou 62 anos de sua vida à instituição, tornando-se referência de acolhimento, cuidado e transformação social.
Hoje, o Hospital São Julião vive um novo capítulo. Além de se consolidar como referência em cuidados paliativos, a unidade tornou-se exemplo nacional em gestão sustentável de resíduos hospitalares por meio do projeto “Lixo Zero”.

A iniciativa, apresentada pelo gerente de Política Ambiental do hospital, Bruno Madalena, baseia-se na educação contínua dos profissionais e na correta segregação dos resíduos gerados no ambiente hospitalar. O trabalho permitiu identificar, por exemplo, que grande parte do material descartado como infectante era composta por embalagens estéreis sem contaminação, que passaram a ser encaminhadas para reciclagem.
As mudanças alcançaram diferentes áreas da instituição. Marmitas de isopor foram substituídas por recipientes de alumínio reciclável; resíduos de vidro passaram a ser triturados e destinados à construção civil; e cerca de sete toneladas mensais de resíduos orgânicos passaram a ser transformadas em composto orgânico utilizado em um bananal cultivado pelo próprio hospital. Os frutos produzidos retornam ao refeitório da unidade, fechando um ciclo de economia circular que une sustentabilidade e eficiência.
O impacto do projeto também alcança a esfera social. O centro de triagem de materiais recicláveis emprega pessoas em regime semiaberto, contribuindo para processos de reinserção social e geração de oportunidades.
Ao final da apresentação, Bruno Madalena destacou que os resultados obtidos não dependem de grandes investimentos financeiros, mas de mudanças de cultura organizacional, disciplina e apoio institucional.
Jurandi destacou o potencial de replicação da iniciativa em outras unidades do País. “São experiências como essa que mostram a capacidade de inovação presente no SUS. Precisamos disseminar essas boas práticas para que possam inspirar outros estados e fortalecer uma gestão cada vez mais eficiente, sustentável e comprometida com as pessoas”, afirmou.
Mais do que uma experiência de gestão ambiental, o projeto apresentado mostrou que o cuidado em saúde pode ultrapassar os limites da assistência e alcançar também a preservação do meio ambiente, a inclusão social e a construção de um futuro mais sustentável.
Fortalecimento da Gestão do Trabalho
A valorização dos trabalhadores da saúde e o fortalecimento da gestão do trabalho também estiveram entre os temas debatidos. Em parceria com o Instituto Synergos, o Conselho vem desenvolvendo uma série de iniciativas voltadas à promoção do bem-estar, da saúde mental e da resiliência dos profissionais que atuam no SUS.
Ao apresentar os avanços do projeto, o coordenador da Câmara Técnica do Conass de Gestão do Trabalho e de Educação na Saúde e assessor técnico do Conselho, Haroldo Pontes, destacou que a proposta busca ampliar a compreensão da gestão do trabalho para além das atividades tradicionalmente associadas aos recursos humanos. “O foco é fortalecer a gestão do trabalho nas secretarias estaduais de saúde. Quando falamos desse tema, não estamos tratando apenas de vínculos empregatícios ou questões administrativas, mas também dos processos de trabalho, das relações profissionais, da organização dos serviços e das condições necessárias para que os trabalhadores possam desempenhar suas funções com qualidade”, explicou.
Segundo ele, a iniciativa surgiu da percepção de que os desafios enfrentados pelas secretarias exigem um olhar mais estruturado sobre o cuidado com quem cuida. O projeto já envolveu 19 secretarias estaduais de saúde, com a realização de um diagnóstico situacional, seis webinários temáticos e o desenvolvimento de um curso em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV), que será disponibilizado para todas as secretarias estaduais.
Além disso, está prevista a publicação dos resultados obtidos ao longo do processo, contribuindo para a disseminação de conhecimentos e experiências sobre gestão do trabalho no SUS.
A diretora para a América Latina do Instituto Synergos, Silvia Moraes, destacou que a parceria nasceu a partir das discussões sobre o impacto da pandemia na vida dos profissionais de saúde e da necessidade de ampliar o debate sobre bem-estar no ambiente de trabalho. “Tem sido uma satisfação trabalhar com o Conass. Essa parceria surgiu de uma reflexão sobre a saúde e o bem-estar dos profissionais que sustentam diariamente os serviços de saúde. Produzimos dois relatórios que combinaram a perspectiva acadêmica com o diálogo entre gestores, sindicatos e representantes do setor saúde, buscando compreender os desafios e apontar caminhos para seu enfrentamento”, afirmou.
Segundo ela, a ação contou com a adesão de 16 secretarias estaduais de saúde, cada uma representada por dois participantes. O objetivo foi capacitar lideranças para desenvolver estratégias capazes de melhorar as condições de trabalho das equipes que atuam na linha de frente do SUS, tanto na administração direta quanto na indireta.
Silvia também apresentou os resultados da segunda etapa do projeto, iniciada em setembro de 2025, que incluiu um amplo diagnóstico junto a 19 secretarias estaduais. O levantamento analisou aspectos como estrutura organizacional, conceitos adotados na gestão do trabalho, relações intersetoriais e iniciativas voltadas à promoção do bem-estar dos trabalhadores.

Haroldo reforçou pontos sobre a implementação do curso, enfatizando que ele é gratuito para as secretarias e que os objetivos e metas foram definidos pelos próprios gestores estaduais, adaptados às capacidades e realidades locais. Ele esclareceu que os gestores das secretarias podem solicitar ajustes no conteúdo, se necessário, para melhor atender às suas demandas específicas, e ressaltou que, mesmo as secretarias que não participaram da fase de construção do projeto, poderão usufruir do material.
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Luiza Tiné
Assessoria de Comunicação do Conass