Como a oftalmologia na Atenção Primária à Saúde acontece na prática foi tema de reunião na quinta-feira (15). Coordenada pela Maria José Evangelista, assessora técnica do Conass e responsável pela Planificação da Atenção à Saúde, o encontro contou com a participação da coordenadora da Comissão Social da Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica, Ana Carolina Carneiro.
Durante a reunião, Evangelista explicou que a Planificação é um método que busca integrar a Atenção Primária à Atenção Especializada, por meio da organização de fluxos e da facilitação do acesso aos serviços de saúde. Ela destacou a parceria entre o Conass e o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) para o desenvolvimento de um projeto piloto de saúde ocular na região do Cariri, no Ceará, tendo o município do Crato como local de implantação inicial. “A escolha se deu pelo compromisso da secretária municipal de Saúde em apoiar a iniciativa, com o desafio de integrar as ações e fazer com que as regiões se desenvolvam em conjunto”, afirmou.
A consultora do Conass, Alzira Nery, ressaltou que o projeto no Crato envolve o mapeamento dos oftalmologistas da região e a revisão da carteira de serviços de oftalmologia da Policlínica do município, com foco no acompanhamento de gestantes e na prevenção em saúde materno-infantil. “Há necessidade de capacitação específica para os profissionais e para a equipe de coordenação, em razão das particularidades da área de saúde ocular”, observou.
Ana Carolina apresentou a proposta de aplicação da Planificação da Atenção à Saúde com foco na saúde ocular. Segundo ela, o objetivo é consolidar um modelo replicável e escalável, a partir do projeto piloto no município cearense. “É importante termos uma estratégica da saúde ocular, lembrando que a deficiência visual evitável tem grande impacto na qualidade de vida e que alterações oculares podem funcionar como biomarcadores de doenças crônicas, como o diabetes”, comentou.
A coordenadora alertou ainda que a perda de visão compromete o desenvolvimento individual, o aprendizado e a autonomia em diferentes faixas etárias, reforçando a importância do diagnóstico oportuno para prevenir a cegueira ou reduzir a deficiência visual. Ela apresentou dados epidemiológicos globais que mostram variações nas principais causas de deficiência visual moderada, severa e cegueira entre populações e gêneros. “As principais causas de deficiência visual no mundo são a catarata e os erros refrativos, ambos tratáveis, enquanto, nos casos de cegueira, predominam o glaucoma e a degeneração macular relacionada à idade, especialmente em pessoas acima dos 80 anos”, explicou.
Ela chamou atenção para a retinopatia diabética, que, diferentemente de outras causas de cegueira, não apresentou redução ao longo dos anos e tende a se tornar mais prevalente, sobretudo em regiões de maior vulnerabilidade. “Apesar da existência de diversos mecanismos na saúde pública para o cuidado em saúde ocular, como o pré-natal, o teste do reflexo vermelho, ações voltadas às doenças crônicas e a atenção especializada, a fragmentação dos sistemas de cuidado dificulta a conclusão adequada do tratamento pelos pacientes”, comentou. Para ela, a perda de seguimento e a falha no encaminhamento oportuno contribuem para desfechos graves, como cegueira e deficiência visual severa, agravados pela falta de comunicação entre os níveis de atenção e pela distribuição ineficiente de recursos.
Nesse contexto, Ana Carolina reforçou que a Planificação é fundamental para a organização do cuidado em saúde ocular, por meio da definição de populações, estratificação de risco, linhas e planos de cuidado e integração em rede. “A proposta atual é integrar a saúde ocular à Atenção Primária e organizar o cuidado em todos os níveis, começando pelo desenvolvimento de protocolos voltados à gestação e à infância. A partir dessa base, será possível avançar para o cuidado das faixas etárias adultas e idosas, com foco nos pacientes crônicos”, pontuou.
Ao final, Ana informou que, em parceria com a superintendência regional, foi identificada uma demanda específica no Cariri e no município do Crato para o enfrentamento de problemas como glaucoma, diabetes, retinopatia da prematuridade e triagem neonatal, reforçando o consenso de que o início das ações deve se dar pela saúde materno-infantil.
Maria José também ressaltou a parceria entre o Conass, o CBO e o Ministério da Saúde, destacando a importância dessa cooperação para tornar essa etapa da Planificação cada vez mais eficiente. Também participaram da reunião Marco Antônio Matos e Pretta Cani, consultores do Conass.