
Brasília – A transformação digital na saúde é uma realidade que cada vez mais tem contribuído para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Pensar em estratégias que potencializem a gestão e a tomada de decisão baseada em evidências, mais do que uma necessidade, é um compromisso com a qualificação do cuidado, a eficiência dos serviços e a melhoria dos resultados em saúde para a população.
Diante da relevância estratégica da saúde digital, o Conass promoveu, nesta terça-feira, 24 de fevereiro, um seminário internacional sobre o tema. O evento reuniu, de maneira presencial e online, profissionais de saúde, gestores, autoridades e especialistas nacionais e internacionais, que abordaram a temática sob diferentes prismas, a partir de experiências distintas e sob a ótica de desafios que permeiam o cenário não só no Brasil, como no mundo todo.

Na abertura do evento, a presidente do Conass, Tânia Mara Coelho, disse que a transformação digital precisa estar ancorada em três pilares: equidade, sustentabilidade e eficiência. Segundo ela, não basta investir nos sistemas mais avançados se não houver profissionais engajados e capacitados para utilizá-los.
Tânia ressaltou o avanço da telemedicina, especialmente durante a pandemia de Covid-19, citou a experiência do Ceará com a telessaúde e disse que a estratégia é fundamental para a organização da rede de atenção e o fortalecimento da regionalização. Ela também reconheceu o papel do Ministério da Saúde no incentivo à incorporação tecnológica nos estados e municípios. “A inovação tecnológica precisa ser uma política de Estado ininterrupta”, defendeu, ao alertar para a importância da continuidade das ações, inclusive em períodos eleitorais. Para a presidente do Conass, a digitalização deve caminhar lado a lado com a humanização do atendimento. “Não podemos perder o olhar para o paciente. Fala-se muito em personalizar o cuidado, e isso exige responsabilidade no uso das informações para qualificar a assistência.”
A cooperação entre o Brasil e a Dinamarca no âmbito da inovação digital em saúde foi destaque na fala da embaixadora Eva Pedersen. “Há mais de 10 anos somos parceiros nessa área que é fundamental para os sistemas de saúde”, afirmou a diplomata, que mencionou ainda a vinda da Ministra da Saúde do país ao Brasil, ocasião em que participará de agendas estratégicas com o governo brasileiro, especialmente na área de pesquisas.
Representando o Conselho Nacional de Saúde, Débora Melecchi enfatizou que dialogar sobre saúde digital é falar de um futuro embasado em políticas públicas de saúde que têm impacto importante para a sociedade brasileira e para o país, destacando que a democracia não pode ficar de fora desta discussão. “Nós constituímos um Comitê de Saúde Digital e Comunicação em Saúde onde defendemos a saúde digital como um projeto de País em que o direito à saúde se sobrepõe ao lucro e onde a democracia não se submete ao interesse do mercado”, disse.
Cuidados de saúde orientados por dados
As discussões do painel internacional evidenciaram o papel estratégico dos dados para a transformação dos sistemas de saúde, abordando desde a produção de evidências científicas até a tomada de decisão em políticas públicas e a organização dos serviços.
A experiência europeia, apresentada pelo professor de Informática em Saúde da Aalborg University e Danish and Health Research Network (Dinamarca), Christian Nøhr, demonstrou que a transformação digital na saúde não se resume à adoção de tecnologias, mas envolve mudanças organizacionais, culturais e de governança. Ele apresentou o modelo dinamarquês, que há décadas investe em estratégias nacionais de informática em saúde e atualmente avança para um sistema com acesso digital facilitado, maior uso de telemedicina, inteligência artificial e monitoramento remoto de pacientes.

Na perspectiva da economia da saúde, o professor de Economia da Saúde e Diretor do Centre for Health Economics da University of York (Reino Unido), Mark Sculpher, abordou a importância da avaliação econômica orientada por dados para apoiar decisões em sistemas com recursos limitados. Ele explicou que toda incorporação de tecnologias ou intervenções envolve custos de oportunidade, já que investimentos em uma área podem implicar a perda de benefícios em outra. Segundo Sculpher, a clareza sobre o problema decisório, as alternativas disponíveis e os objetivos a serem alcançados é fundamental para transformar evidências em políticas públicas mais eficientes.
Já a mestre e doutora em Engenharia de Produção, Ana Paula Beck da Silva Etges, destacou que sistemas de saúde em todo o mundo enfrentam desafios estruturais que foram intensificados após a pandemia, como a perda de confiança da população e a pressão por sustentabilidade financeira. Segundo ela, a construção de estratégias baseadas em dados é essencial para tornar os sistemas mais eficazes, com foco na prevenção. Ela ressaltou que a utilização de dados secundários para inovação não deve ser vista como opcional, mas como uma responsabilidade ética.
Encerrando o painel, Mauricio Barreto, epidemiologista e coordenador científico do Cidacs/Fiocruz Bahia, trouxe a perspectiva da epidemiologia e dos determinantes sociais da saúde, demonstrando como grandes bases de dados podem gerar evidências robustas. Para o pesquisador, a integração de dados produzidos rotineiramente pelos sistemas públicos representa uma oportunidade estratégica para aproximar pesquisa e prática, fortalecendo a tomada de decisão.
Estratégia de Saúde Digital e Gestão Federada de Dados
A secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde, Ana Estela Haddad, destacou a importância estratégica da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) como eixo estruturante da transformação digital do SUS. Segundo ela, “a Rede é a plataforma nacional de interoperabilidade em saúde. No horizonte da RNDS está um Brasil conectado, com todos os estabelecimentos integrados, falando a mesma língua digital”.

A secretária também ressaltou o avanço representado pela federalização da Rede. “Unidades da Federação poderão acessar diretamente, de forma ágil, os dados primários para armazenar, processar e disseminar conforme suas necessidades. É o passo que garante acesso direto, contínuo e estruturado aos dados”, afirmou.
De acordo com Ana Estela Haddad, a iniciativa fortalece a autonomia dos estados e qualifica a gestão pública. “Dados federados são o elo para transformar o cuidado com os cidadãos e consolidar uma saúde pública mais humana, contínua e eficiente”, pontuou.
Ela reforçou ainda que o programa SUS Digital integra serviços e informações para cidadãos, profissionais e gestores, permitindo o acompanhamento da trajetória de saúde com dados confiáveis e soluções inovadoras que qualificam o cuidado em todo o território nacional.
Experiências estaduais

No seminário os estados do Amazonas, Goiás, Bahia, Rio de Janeiro, e Santa Catarina apresentaram as suas experiências exitosas em relação ao avanço da saúde digital em seus territórios.
Nayara Maksoud, secretária de Estado de Saúde do Amazonas apresentou os avanços da saúde digital no estado, com destaque para o fortalecimento do Telessaúde e a consolidação do programa Saúde AM Digital, classificado por ela como “um divisor de águas para o Amazonas”.
Durante a apresentação, a secretária contextualizou os desafios históricos enfrentados pelo estado, marcados por logística complexa e distâncias extremas entre os municípios. “O Amazonas possui uma realidade única no país. São longas distâncias percorridas, muitas vezes apenas por via fluvial ou aérea, o que impacta diretamente o acesso da população aos serviços de saúde”, explicou.
Segundo Nayara, o Saúde AM Digital é um programa de governo que integra tecnologia às políticas públicas de saúde, estruturando um novo modelo de cuidado no território amazônico. “A transformação digital deixou de ser uma alternativa e passou a ser uma estratégia central para garantir acesso e equidade. A digitalização representa uma resposta concreta às iniquidades provocadas pelo chamado “fator amazônico””, afirmou.
Já para o superintendente de Informação e Saúde Digital da Secretaria da Saúde da Bahia, Diego Daltro, a transformação digital vai muito além da tecnologia. “Ela é, sobre pessoas, cultura e propósito.
Segundo ele, mais do que implantar sistemas, é preciso promover mudanças que gerem valor real para profissionais e usuários do SUS. “Transformação digital não é sobre tecnologia, é sobre pessoas, culturas e propósito. Hoje falamos sobre experiências, aprendizados e transformação”, ressaltou.
Dando continuidade ao debate sobre inovação no SUS, a secretária de estado de Saúde do Rio de Janeiro, Claudia Mello, apresentou a experiência fluminense na transformação digital da saúde pública.
Ao relembrar o cenário anterior a 2019, a secretária destacou que a gestão era marcada por processos fragmentados e pouco integrados. “Tínhamos pilhas de relatórios em papel, planilhas em Excel, bancos de dados que não se conectavam e um trabalho manual, repetitivo e sujeito a falhas”, relatou.
Segundo Claudia, a pandemia de Covid-19 acelerou a necessidade de mudança e a urgência de trabalhar as informações de maneira integrada.Claudia destacou ainda a criação do CIS-RJ – Centro de Inteligência em Saúde, inaugurado em julho de 2023, considerado o “cérebro da operação” da secretaria. “Unificamos, de forma física e digital, setores vitais da gestão na sede da SES-RJ. O CIS opera com apoio estratégico da Organização Pan-Americana da Saúde e hoje é referência nacional em inteligência de dados aplicada à saúde pública”, concluiu.
A secretária reforçou que a modernização vai além da tecnologia. “A transformação digital da SES-RJ não é apenas sobre tecnologia, é sobre garantir que o SUS seja cada vez mais acessível, transparente e resolutivo para quem mais precisa. Por trás de toda a tecnologia, temos profissionais dedicados a cuidar de pessoas. A SES-RJ é formada por gente que cuida de gente. Essa é a nossa missão e o nosso maior orgulho”, disse.
Em Goiás destaque para a Estratégia de Saúde Digital, apresentada pelo secretário de Saúde, Rasível Santos, que pontuou os avanços estruturantes na área de sistemas, interoperabilidade e infraestrutura tecnológica, com foco direto no cidadão.
Segundo ele, um dos marcos foi a criação do Centralizador Estadual do e-SUS, que viabilizou a implantação de uma base única estadual de dados, promovendo maior integração e confiabilidade das informações. “Em 2020, implementamos o prontuário eletrônico integrado nas unidades estaduais, consolidando dados assistenciais em uma única plataforma”, explicou.
A política de transformação digital no estado também incluiu forte investimento em infraestrutura e capacitação. Entre as principais ações estão a expansão e qualificação do Wi-Fi nas unidades, implantação de novos servidores, melhoria do acesso à internet com aumento de velocidade e estabilidade, reforço dos mecanismos e das políticas de segurança da informação, além da atualização e modernização do parque tecnológico.
Os avanços estruturantes de Santa Catarina na área de tecnologia, interoperabilidade e inteligência em saúde foram apresentados pelo secretário de Estado da Saúde de Santa Catarina, Diogo Demarchi que destacou o fortalecimento da Coordenação Estadual de Telessaúde, que atualmente conta com diversos módulos em produção, como teleconsultorias, telediagnóstico, entre outros.
Demarchi ressaltou ainda a estruturação do Centro de Inteligência Estratégica para Gestão do SUS, com formação de equipe, criação do Comitê Gestor de Inteligência em Saúde, elaboração de plano estratégico e desenvolvimento de painéis operacionais e táticos para apoio à decisão. “Hoje produzimos dashboards operacionais e estratégicos que qualificam o planejamento e a avaliação da gestão”, pontuou
No campo da interoperabilidade, Santa Catarina estruturou a Rede Catarinense de Dados, com base centralizada focada no paciente e arquitetura preparada para receber grandes fluxos de dados. “Estamos tecnicamente preparados para a integração total com a RNDS”, destacou
Ao encerrar, Diogo Demarchi reforçou que a transformação digital envolve governança, segurança da informação, rastreabilidade e modernização de sistemas hospitalares e de compras públicas. “Nosso compromisso é integrar tecnologia, gestão e cuidado, garantindo eficiência, transparência e melhor atendimento à população catarinense”, concluiu.
Sobre as experiências estaduais, a secretária de Informação e Saúde Digital do MS, Ana Estela Haddad, deu destaque à interoperabilidade das iniciativas com a RNDS e disse que as apresentações demonstram avanços significativos na área, além de demostrarem que os estados e o governo federal estão caminhando juntos nesta evolução.
📸 Acesse aqui as fotos do evento.
O evento pode ser assistido na íntegra:
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Assessoria de Comunicação do Conass