Especialistas defendem permanência de regras sobre atendimento em saúde a distância

A epidemia do novo coronavírus e o consequente aumento da demanda por assistência provocou uma revolução na forma de atendimento de saúde no País. As históricas restrições feitas por entidades de classe à assistência a distância foram deixadas de lado, permitindo consultas, orientações e encaminhamentos por meio de chamadas de voz, de vídeo e aplicativos de telefone. A mudança foi essencial para ajudar a organização do atendimento da atenção básica, trouxe uma série de ganhos. Mas será que ela veio para ficar? Este foi o tema discutido durante o debate organizado pelo Conass na última semana.

Mediado pela assessora técnica do Conass, Maria José Evangelista, o encontro virtual contou com a participação do consultor do Conass, Eugênio Vilaça; do secretário adjunto de Saúde de Porto Alegre, Natan Katz; do secretário municipal de Saúde de Salvador, Leonardo Silva Prates, do coordenador técnico do Conasems, Nilo Bretas e da facilitadora de Planificação da Atenção à Saúde do Conass, Eliane Chomatas.

A resolução do Conselho Federal de Medicina permitindo atendimento à distância é temporária. Foi feita em abril, numa reação à pandemia. A entidade de classe, no entanto, já iniciou um grupo de estudo para definir parâmetros para uma nova norma, agora permanente.

Maria Evangelista defende que as mudanças autorizadas em abril  sejam reconhecidas e incorporadas. “É uma ferramenta importante, facilitadora da teleassistência como um todo”, avaliou. Para a assessora do Conass, não há como abrir mão das conquistas alcançadas com essa forma de atendimento, sob pena de trazer grandes prejuízos para a população.

Eugênio Vilaça conta que Brasil sempre foi conservador em relação ao atendimento a distância. O consultor citou como exemplo Israel, onde 60% das consultas pediátricas já são feitas por telefone celulares. Para Vilaça, as necessidades provocadas pela pandemia forçaram o País a deixar de lado a timidez e a  lentidão em relação a essas políticas. “Com a Covid-19, houve uma mudança na lógica do atendimento. Agora não são mais as pessoas que vão até os serviços. Os serviços vão até as pessoas.”

Para o sanitarista Eugênio Vilaça, as necessidades provocadas pela pandemia forçaram o País a deixar de lado a timidez e a lentidão em relação a algumas políticas de saúde

 O consultor alerta, no entanto, que a demanda por atendimento deve permanecer mesmo quando as estatísticas relacionadas à Covid-19 começarem a baixar. Há expectativa de que casos represados de atendimento de pacientes com doenças crônicas continue a provocar pressão nos serviços. Abrir mão nesse momento dessas ferramentas poderia provocar um prejuízo para população.

Em Porto Alegre, a assistência a distância tem dado ótimos resultados, afirma o secretário adjunto de Saúde da cidade. O ideal, avalia, é usar as várias ferramentas disponíveis. “Quanto mais a gente misturar as ferramentas no dia a dia, mais a gente vai se sentir enturmado e mais fácil nos apropriarmos das soluções”, disse. Natan cita o monitoramento a distância dos pacientes, o telediagnóstico, a teleconsulta, a regulação do acesso às consultas.

Em Porto Alegre, a prática trouxe, por exemplo, uma melhora significativa nos indicadores do tratamento de pacientes com tuberculose, uma doença cuja taxa de cura na cidade era tradicionalmente ruim. A cidade sempre apresentou alta incidência e uma taxa de abandono ao tratamento preocupante. Para tentar reverter essa situação, Porto Alegre passou a acompanhar os pacientes também de forma remota.  “Conseguimos melhorar a taxa de cura, reduzir as recidivas”, relatou.

A experiência no atendimento a distância foi ampliada com a chegada do coronavírus. Um canal de Whatsapp foi criado para tirar dúvidas e repassar informações, um monitoramento de instituições de longa permanência de idosos foi colocado em prática. Para o secretário adjunto, um retrocesso na legislação sobre o atendimento a distância vai reduzir o acesso à saúde.

Medidas de teleassistência adotadas em Salvador também ajudaram de forma significativa a acompanhar pacientes em tempos de Covid-19, contou Silva Prates. Dentro da iniciativa Salvador Protege, unidades e equipes de saúde foram equipadas para fazer o atendimento a distância. “A telemedicina trouxe uma aproximação dos pacientes com agentes, que permaneceram em isolamento.” O resultado já é visto nos indicadores. “Durante a pandemia, o atendimento na atenção primária aumentou em vez de diminuir”, contou Eliana.

Para assistir o debate virtual na íntegra, acesse:

https://www.youtube.com/watch?v=asIiUCvcZJs

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