Fortalecimento das redes é o caminho para redução de mortalidade materna

Planejamento, regulação de pacientes e melhora do ensino também são desafios

Quando os primeiros casos de Covid-19 foram registrados no Brasil, a experiência de outros países indicava que gestantes, ao contrário do que aconteceu com H1N1, não integravam o grupo de maior risco para a doença. Bastaram poucos meses, no entanto, para que essa afirmação fosse desmentida pelos fatos. Grávidas têm maior risco de complicações pelo novo coronavírus, precisam de uma atenção especial, sobretudo as que apresentam maior vulnerabilidade social. Um estudo publicado em julho, coordenado pela pesquisadora Maiara Takemoto, mostra que o País registrou entre 26 de fevereiro a 18 de junho 124 óbitos maternos por Covid-19. Um número classificado pela própria equipe de pesquisadores como trágico.

A elevada taxa de mortalidade materna pelo novo coronavírus indicada pelo trabalho, cujos dados ainda são parciais, é reflexo do agravamento de desafios que já existiam no País, afirmou a pesquisadora de Saúde DA Criança e da Mulher da Fiocruz, Maria Auxiliadora Gomes. Durante Debate Virtual realizado nesta sexta pelo Conass para discutir o tema, a pesquisadora observou que os altos indicadores contabilizados nos primeiros MESES de epidemia no País podem ser combinação de problemas como a má qualidade do pré-natal, recursos insuficientes para o manejo de situações de emergência, violência obstétrica e a dificuldade no acesso aos serviços para determinados grupos.

Maria Auxiliadora observou que, no primeiro momento da pandemia, desafios de acesso e qualidade foram agravados pelas medidas de  isolamento. “Nem todos os locais estavam preparados para fazer o acompanhamento das gestantes de forma remota.” Além disso, em alguns pontos do País, planos de contingência determinaram a desativação de leitos de maternidade, um problema que mais tarde foi contornado.

Fernando Cupertino, coordenador técnico do Conass, mediou o debate virtual

O coordenador técnico do Conass, Fernando Cupertino, durante o debate ressaltou que a pandemia agravou problemas já identificados no País. Para ele, o caminho a ser trilhado para melhorar indicadores passa pelo aprimoramento na articulação dos serviços. A estratégia, observou,  proporciona a continuidade das ações e uma abordagem mais criteriosa do atendimento. Cupertino ressaltou ainda a importância do trabalho em equipe, em que profissionais da saúde não apenas compartilham o conhecimento, mas dedicação e cuidado para paciente. “Fortalecer as redes, melhorar as práticas de educação permanente são estratégias importantes. E é o que o Conass preconiza na estratégia de planificação”,completou.

Experiências identificadas no País mostram que o desafio, embora seja grande, tem potencial para ter ótimos desfechos. Experiências compartilhadas pelas enfermeiras da cidade maranhense de Caxias durante o Debate Virtual transmitido nesta sexta, mostram o quanto isso é possível. A cidade de Caxias, de 165 mil habitantes, ficou há alguns anos conhecida por apresentar um alto índice de casos de mortalidade materna. Quando a crise estava em seu auge, uma força-tarefa foi montada para combater O problema. Com a planificação de saúde, profissionais receberam treinamento, o número de gestantes anuais passou a ser estimado para organizar e planejar o atendimento. Com base nos dados, equipamentos foram comprados. “Foi feito um trabalho para territorialização, identificar as mulheres, organizar a assistência de acordo com as necessidades”,contou a enfermeira Amanda Costa, da coordenação da política para mulheres da cidade. Uma linha de cuidado foi montada. “Saímos do tratamento empírico e passamos a trabalhar de forma evidenciada.”

Planos individualizados de cuidados tornaram-se constantes. A enfermeira Aliny Pedrosa, coordenadora do Núcleo de Ensino e Pesquisa do Centro Especializado em Assistência Materno Infantil de Caxias, afirma que graças à organização, o atendimento não foi interrompido mesmo nos primeiros meses da epidemia. “Muitas gestantes eram atendidas de forma remota.Construímos protocolos, um fluxo diferente que teve ótimos resultados.”

A estratégia de atendimento nos hospitais também foi um fator importante nas cidades da Bahia, afirmou a subsecretária de saúde, Teresa Paim, durante o debate. A subsecretária contou que um acompanhamento foi realizado para garantir o atendimento da gestante, da mulher que acabou de dar a luz e das que tiveram abortamento. Um dos pontos-chave foi a comunicação entre serviços e a fixação de um fluxo de atendimento, que garantia para gestantes com Covid atendimento em hospitais referenciados.

A experiência da Bahia foi elogiada por Ananda Marques, coordenadora da Saúde da Mulher da Secretaria Estadual de Saúde do Maranhão. Para Ananda, os desafios no setor não são novos e foram agravados por causa da pandemia. “A mortalidade materna no Brasil tem uma história. O Maranhão vem conseguindo mudar essa realidade. Mas os desafios ficaram mais complexos. Mas, com energia, vamos solucioná-los.”

Fonte: Ascom Conass

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