Índia e Brasil: variantes do coronavírus e enfrentamento da Covid-19

Na manhã desta quarta-feira (12/05/2021), durante reunião da assessoria técnica do Conass, especialistas da Organização Pan Americana da Saúde (Opas) apresentaram aspectos relacionados ao aumento exponencial de casos de Covid-19 na Índia, traçando um paralelo com a situação do Brasil.

Maria Almiron e Rodrigo Stabeli abordaram a circulação de novas variantes que, segundo estudos, apresentam maior transmissibilidade do coronavírus, embora não haja comprovação de que sejam mais letais. “As festividades na Índia oportunizaram várias mutações e a explosão das linhagens da variante B.1.617 em momentos e regiões diferentes. São mutações clássicas e preocupantes que devem ser olhadas com atenção, principalmente, porque a dinâmica da mutação corrobora com o relaxamento das medidas de proteção”, explica Stabeli.

Variantes circulantes no Brasil X número de casos

Segundo Maria Almiron, a segunda onda na Índia reporta 3 ou 4 vezes mais óbitos do que o registrado no mesmo período do ano passado e cabe ressaltar que esses números podem sofrer reajustes retroativos, considerando as comemorações festivas ocorridas no país no final do ano de 2020 e início de 2021.

No Brasil, é possível mapear a diversidade de variantes circulantes com base em uma das plataformas alimentadas no país, como por exemplo, a da Fiocruz Amazônia. “O número de variantes circulantes está condicionado à capacidade do estado de ter grupos que apoiem a atividade de sequenciamento e características das variantes”, explica Stabeli.

Diversidade das Linhagens do SARS-CoV-2 circulantes no Brasil

A variante B.1.1.28, uma das primeiras identificadas no Brasil, apareceu no ano passado e segue até agora, porém, a P2, identificada em outubro, se tornou predominante até dezembro e início deste ano, quando a P1 passou a predominar. “A dinâmica destas três variantes sinaliza que a B.1.1.28 está ficando atrás da P1 em todas as regiões”.

A pertinência da comparação entre dois países, Brasil e Índia, é que ambos precisam ampliar a vigilância genômica, extremamente necessária com a movimentação da população e a evolução dos vírus respiratórios. “O estresse causado pela pandemia enfraquece o distanciamento físico, perde-se o medo do vírus e por isso na briga pela predominância das variantes, sobrevive aquela que estiver mais adaptada. Esse é o caminho evolutivo que o vírus tem tomado para se adaptar e se manter”, esclarece o especialista.

Maria Almiron ressalta que o fato de a Índia ser um país superpopuloso, com mais de 1,4 bilhões de habitantes, com grande disparidade social e econômica e o sistema de vigilância em saúde precário, sugere a subnotificação de casos e óbitos, porém, não há como estimar essa subnotificação, apenas compreender que o que está ocorrendo é muito maior do que a primeira onda, comparando o país com ele mesmo, tanto em número de casos quanto de óbitos.

Ela destaca ainda que o aumento dos casos está relacionado ao descontrole de medidas de prevenção e que as variantes até podem aumentar a transmissibilidade, mas o surgimento de novas variantes se dá justamente pelo relaxamento do distanciamento social e a maior movimentação da população. Com o aumento do número de casos, consequentemente aumenta o risco de casos graves e óbitos.

Para o assessor técnico do Conass, Nereu Henrique Mansano, a responsabilidade pelo aumento de casos e óbitos não é exclusivamente das variantes. “É insensato colocar responsabilidade somente no fator biológico e não reforçar medidas de prevenção e controle e em especial as medidas de distanciamento social, com base em avaliação de risco”, enfatizou Mansano. Além disso também é necessário  reforçar as medidas de controle de entrada e de saída das pessoas de ambos os países a fim de evitar que novas variantes circulem entre os países.

Segundo o coordenador técnico do Conass, Fernando Cupertino, estudo recente mostra que o fator político é mais determinante para o nível de resposta dos países latino-americanos na pandemia e não necessariamente a robustez do sistema de saúde. “É sempre mais cômodo, prático e político culpar a variante do que a ação dos gestores públicos, que muitas vezes vão na contramão do que é recomendado”, alertou. Cupertino questiona se as vacinas terão eficácia para as variantes já existentes e as que surgirem e falou da expectativa de que as medidas não farmacológicas anunciadas hoje pelo Ministério da Saúde contemplem o distanciamento social.

“Aprendemos com a Índia que essa linha de tempo entre descida de casos e vacinação incipiente é perigosa. Isso porque gestores e população, diante da redução do número de casos e óbitos, tendem a fomentar eventos massivos – que é o que está causando a tragédia que vemos na Índia”, enfatiza Maria. E aleta ainda que no Brasil estamos vivendo este momento e que mesmo com a queda de casos e óbitos ainda não seja tão expressiva quanto esperamos, celebrar a vacinação não deve ser motivo para festejar datas e relaxar com medidas de prevenção e distanciamento social. “Temos ainda a preocupação com o inverno nas regiões Sul e Sudeste, cuja maior circulação de vírus respiratórios leva ao aumento de casos e agravamento destes”, completou.

Em relação à atualização das vacinas para que sejam eficazes contra as novas e futuras variantes, Rodrigo Stabeli disse que provavelmente as tecnologias das três principais vacinas do mundo darão conta das novas variantes. Vale lembrar que as vacinas liberadas emergencialmente são efetivas, evitando que os casos evoluam para gravidade e óbito. “As vacinas não protegem totalmente contra casos leves ou mesmo evitam a possibilidade de contaminação. No entanto, com a vacina os casos são mais leves. É preciso tomar cuidado com os Planos de Comunicação para não culpar a vacina e as variantes”, defendeu.

Fernando Avendanho, assessor técnico do Conass, abordou a aposta equivocada do governo do Brasil na imunidade de rebanho com infecção natural e defendeu que essa imunidade que visa a diminuição da mortalidade só pode ser alcançada com a proteção da vacina. Rodrigo Stabeli corroborou, explicando que em nenhuma pandemia ocorrida na história da humanidade ocorreu a imunidade de rebanho, que só ocorre a partir do cerco feito pela imunização. “Nunca houve na história da ciência imunidade de rebanho natural para vírus ou bactérias com maior taxa de ataque”.

Para Maria Almiron é preciso considerar a oferta dos testes e positividade das amostras testadas. “No Brasil, essa porcentagem é alta, chegando a 60%, 70%, no entanto, trata-se de oferta super direcionada a pessoas nas Upas e nos Hospitais, para casos moderados ou graves. Se a testagem em massa deve ser feita na comunidade, na Atenção Primária à Saúde, a taxa certamente seria mais baixa”, explica, defendendo que na medida que a pessoa conhece seu status é maior a chance de que adote medidas de prevenção para proteger a família.

Rodrigo lembra que a Índia é grande produtora mundial de insumos, incluindo testes e que isso talvez explique como o país consegue detectar até  400 mil novos casos por dia, mesmo com um sistema de saúde precário. “As grandes indústrias que estão produzindo os testes e ofertando à população. A diferença é que no Brasil a testagem está focada em casos moderados e graves”.

O secretário executivo do Conass, Jurandi Frutuoso, disse que espera que o Brasil fortaleça a vigilância genômica após a experiência do Brasil com a pandemia e agradeceu os especialistas pelas informações que, segundo ele, são de alta relevância para condução dos trabalhos do Conass.

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