Oficina centro-oeste: Quando a regulação deixa de ser fluxo e vira cuidado

O despertador tocou às seis da manhã, desses toques que não pedem licença, apenas anunciam que o dia já começou, queira você ou não. Levantei, ao lado da minha parceira, ainda com o silêncio da madrugada e a sensação de que aquele não seria um dia qualquer. Era dia da primeira Oficina de Regulação do Conass. E não qualquer oficina.

Antes mesmo de descer para o café, conferi mentalmente, e depois, na prática, os materiais que nos acompanhariam. Eu e os técnicos do Conass saímos de Brasília para Cuiabá – Mato Grosso, carregando mais do que pastas, apresentações e cronogramas. Levávamos uma tarefa delicada: provocar.

Provocar gestores e técnicos das secretarias estaduais de saúde do Centro-Oeste a pensar a implementação da Política Nacional de Regulação no SUS para além do que já estava posto. Ouvir experiências que deram certo, entender os gargalos, e, principalmente, abrir espaço para que a regulação deixasse de ser um setor isolado e passasse a dialogar com o todo, como sempre deveria ter sido.

Mas essa missão, na verdade, não nasceu ali. Surgiu devido às demandas apresentadas pelos próprios secretários estaduais de saúde, que já vinham apontando a necessidade de tirar a política do papel, de dar corpo à portaria, de entender como, e se, ela vinha sendo incorporada no dia a dia das equipes.

Cuiabá nos recebeu com amor, no clima e no acolhimento. O secretário de saúde de Mato Grosso, Gilberto Figueiredo, e sua equipe estavam ali, presentes, atentos. Na abertura, ele disse algo que ficou ecoando ao longo do dia. Para ele, sediar a primeira oficina não era apenas uma agenda cumprida, mas um gesto de compromisso com uma saúde pública mais integrada. Um ponto de partida.

E talvez fosse mesmo.

Ao longo da manhã, a sala foi ganhando vida. Não pelas apresentações em si, embora importantes, mas pelo que acontecia entre elas. Gente preparada, com trajetórias diferentes, debatendo sem receio de divergir. Escutando com atenção. Construindo, pouco a pouco, um entendimento comum. Foi nesse movimento que uma fala, em especial, atravessou o ambiente.

Josied Marprates, superintendente de regulação de Mato Grosso, trouxe uma reflexão que parecia simples, mas não era. Disse que, durante muito tempo, enxergou a regulação sob a lente do acesso. E só. Até que, ao mergulhar no material enviado pelo Conass, algo mudou. Disse que foi uma experiência transformadora. Que percebeu, quase com surpresa, que a regulação poderia, e deveria ser muito mais ampla. E, de repente, aquilo que parecia técnico ganhou contorno humano.

Porque, no fundo, era disso que se tratava, ampliar o olhar. Entender que a regulação não se sustenta sozinha. Que ela se entrelaça com a atenção primária, com a contratualização, com o monitoramento. Que depende de articulação. De conversa. De alinhamento. De gente. Sem isso, vira apenas fluxo. Com isso, vira cuidado.

Ainda no primeiro dia, outra percepção começou a se desenhar com mais nitidez. Havia ali um compromisso real com a construção coletiva. Não era sobre cumprir pauta. Era sobre fazer sentido. 

Simone Camilo, gerente de planejamento da Secretaria de Saúde de Goiás, traduziu isso com precisão ao compartilhar o que estava sentindo. Falou sobre a experiência ser “fantástica”, mas não pelo conteúdo em si, e sim pela forma. Pela integração entre áreas. Pelo entendimento de que nenhuma política pública se sustenta quando pensada de maneira isolada.

E, ouvindo aquilo, ficou difícil não perceber que o diferencial não estava apenas no que se dizia, mas no que se construía no encontro. Entre uma fala e outra, veio a da Regina Paula Amorim, coordenadora da Atenção Primária do Mato Grosso, dizendo que era sobre juntar peças que, por muito tempo, caminharam separadas.

Para ela, colocar todos no mesmo espaço com suas certezas, dúvidas e inquietações, e permitir que, dali, surjam caminhos possíveis. Ela contou que a política pública não nasce pronta. Ela não desce em forma de decreto totalmente compreendido. Ela se constrói. No diálogo e na escuta.

Franceli Sayuri, coordenadora da contratualizações de serviços hospitalares Mato Grosso do Sul, compartilhou que o debate ganha vida quando deixa de ser documento e passa a ser prática. Segundo ela, no fim das contas, cada área segue tendo seu papel. Mas talvez o maior aprendizado esteja justamente em reconhecer que nenhuma delas, sozinha, dá conta. Que a  Atenção Primária, trouxe uma visão mais ampla sobre o acesso e os processos de regulação.

E ali foi visto que é na integração, essa palavra tantas vezes comentada, mas nem sempre vivida, que as coisas começam, de fato, a acontecer. E assim, quase sem perceber, o que parecia apenas mais uma oficina vai se revelando outra coisa. Um exercício real de construção. De política, de parceria e, sobretudo, de sentido.

Luiza Tiné/ Ascom – Conass