Há lugares que não cabem em fotografia. O Norte é um deles.
Como não consigo simplesmente falar de um lugar sem antes provar um pouco do gosto das palavras, precisei deixar Belém me atravessar. Primeiro, pela janela do avião. Lá de cima, a Amazônia não parece um rio. Parece um mundo. As águas desenham caminhos impossíveis, ocupam espaços que os olhos não alcançam e lembram, com uma simplicidade desconcertante, que a natureza sempre foi maior do que qualquer mapa.
Depois veio a chegada. O cheiro do jambu no ar. O calor que abraça sem pedir licença. E aquela chuva da tarde que cai com a pontualidade de um relógio britânico, lavando a cidade por alguns minutos antes de devolver o sol.
Quando uns souberam onde ficaríamos hospedados, soltaram logo um comentário:
— Meu Deus, vou dormir onde a Fafá de Belém fica! Entre risos, alguém respondeu: É isso. E pare de reclamar!
E eu ri também. Porque algumas cidades têm esse poder: fazem a gente se sentir personagem de uma história que já existia antes da nossa chegada. No mercado ver o peso, entendi um pouco mais do Pará. Pessoas, barcos, peixes, ervas, cheiros, crenças e águas, tudo no mesmo lugar, sem precisar se explicar. Não há fronteiras muito definidas entre eles. Tudo faz parte da mesma correnteza. Tudo pertence ao mesmo rio.
Foi com essa sensação que chegamos à Oficina de Regulação do SUS da Região Norte I. A reunião preparatória na secretaria de saúde já anunciava o que viria no dia seguinte: gente diferente, realidades distintas e um objetivo em comum. Amazonas, Pará e Amapá sentados na mesma roda, compartilhando desafios que só quem conhece a imensidão da região consegue dimensionar.
O mais bonito, porém, não estava apenas nas apresentações ou nas normas discutidas. Estava nas conversas. Uma participante resumiu bem ao dizer que voltaria para casa com estratégias revistas e um plano de ação para fortalecer a regulação das redes de atenção em seu estado. Afinal, mais do que aprender algo novo, a oficina permitiu olhar novamente para aquilo que já existe e pensar em como fazer melhor.
Outra reflexão apareceu quase como uma mudança de lente: a regulação não é apenas autorizar consultas, exames ou internações. É acompanhar a navegação do usuário dentro do sistema de saúde. É enxergar a jornada completa do cuidado, da Atenção Primária à Atenção Especializada.
Talvez essa tenha sido a palavra que mais ecoou durante os dois dias: integração. Também chamou atenção ver profissionais do jurídico, da administração, da Atenção Primária e de tantas outras áreas dividindo a mesma mesa. A expectativa era discutir apenas regulação. No fim, falou-se de gestão, de trabalho em equipe, de contratos, de planejamento e, principalmente, da necessidade de olhar a saúde como um sistema vivo, em que cada parte depende da outra.
Assim aconteceu no Pará. Houve quem se arrepiasse diante do que escutou. Houve quem dissesse que é preciso que todos voltassem o olhar para dentro de si, percebendo que, antes de transformar processos, é preciso compreender o próprio território, as próprias práticas para fazer o SUS acontecer.
Porque ali, ficou claro, que os rios não caminham sozinhos. Pequenos igarapés encontram grandes cursos d’água, que encontram outros rios, até formar uma imensidão impossível de separar. Talvez o SUS seja um pouco assim também. E talvez tenha sido essa a maior lição que trouxemos na bagagem. Belém ensinou que algumas águas unem territórios. Outras unem pessoas. E, às vezes, uma oficina de Regulação consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
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Luiza Tiné/ Assessoria de Comunicação do Conass