Oficina região Nordeste II: Uma jornada pela regulação do SUS

E lá vamos nós para mais uma aventura.

Ops, não. Mais uma Oficina de Regulação do SUS promovida pelo Conass. Mas, pensando bem, por que não chamar de aventura? As oficinas sempre têm um quê de jornada. E desta vez ela começou ainda no avião. Voo cheio, gente ansiosa para chegar ao destino, alguns passageiros um pouco mais animados do que o necessário, a ponto de tirar uma pessoa do seu assento e arrancar sorrisos irônicos de quem só queria uma viagem tranquila.

Horas depois, pousamos em uma cidade que tem cheiro de sal, de alegria e que, nesta época do ano, parece pulsar ainda mais forte. João Pessoa nos recebeu em pleno clima junino, com suas cores, sua leveza e aquela hospitalidade que faz qualquer visitante se sentir em casa.

O acolhimento começou logo na chegada. Entre os materiais da oficina, uma surpresa atrás da outra. Começamos vendo o simpático bóton do Zé Gotinha paraibano dentro de uma bolsa preparada com muito carinho e uma canga colorida que parecia traduzir, em tecido, a personalidade da cidade.

Mas o que mais chamou atenção não estava nos brindes. Estava nas pessoas. No secretário de saúde com seu sorriso no rosto, técnicos atentos, interessados, participativos. Gente que escutava e falava com o mesmo entusiasmo. Das experiências exitosas aos desafios cotidianos, cada estado trazia um pouco da sua realidade para as salas. E era justamente ali, no encontro das diferenças, que surgiam as reflexões mais interessantes.

Nos grupos de trabalho, um participante refletia sobre os caminhos percorridos até aqui. Outro questionava os motivos pelos quais determinados problemas persistem. Havia quem observasse atentamente cada argumento apresentado e quem ainda estivesse processando as inúmeras provocações que haviam sido lançadas por René,em sua apresentação, que falou do tema de maneira leve, mesmo sendo um assunto que exija profundidade.

Rita, com sua voz serena e didática, apimentou as discussões colocando seu vasto conhecimento. Mas havia algo além das palavras. O seu olhar parecia dizer silenciosamente aquilo que todos sentíamos: ensinar e aprender aconteciam ao mesmo tempo.

Depois de um primeiro dia intenso, com módulos debatidos, anotações mentais e muitas ideias circulando pelas salas, chegamos ao segundo dia. A programação seguiu firme. Era hora de discutir contratualização, transporte sanitário, gestão de filas e gestão da informação. Temas complexos, mas essenciais para quem pensa diariamente em como tornar o acesso ao Sistema Único de Saúde (SUS) mais eficiente e mais justo.

Uma participante do Rio Grande do Norte traduziu bem o sentimento ao destacar que a oficina permitiu às equipes pensar a realidade local, os desafios e as soluções a partir do que foi aprendido sobre a nova portaria de regulação. Em meio a tantas novas diretrizes e mudanças, ela lembrou de que como momentos de troca ajudam a transformar o que está no papel em algo concreto para o cotidiano das equipes na secretaria.

E havia uma novidade importante atravessando praticamente todas as conversas. A atenção primária.”Quando a gente fala em regulação, normalmente pensa em leitos de UTI ou cirurgias. Mas muitas vezes esquecemos do primeiro acesso que o cidadão precisa ter”, observou. Para ela, a integração entre atenção primária, saúde digital e regulação representa um dos caminhos mais promissores para transformar o sistema de saúde.

Nas mesas espalhadas pela sala, as ideias circulavam rapidamente. Na sala de Pernambuco, a pernambucana cheia de alegria anotava e escutava atentamente cada opinião. De outro ela ouvia uma possível solução. Um terceiro comparava experiências de estados diferentes. Era quase uma grande construção coletiva. Como ela disse: uma verdadeira tempestade de ideias. O objetivo era claro: identificar obstáculos, compartilhar aprendizados e construir propostas que pudessem ser levadas de volta aos estados na forma de plano de ação.

Ao mesmo tempo, surgia em outra ala, uma reflexão recorrente sobre a própria essência da regulação. O desafio, como destacou uma técnica da Paraíba, é avançar de uma lógica centrada na oferta de serviços para uma regulação orientada pelas necessidades da população. Parece simples quando dito em uma oficina, mas a mudança de perspectiva é profunda e bem difícil.

Com muito propriedade do assunto, ela diz que uma rede forte não é apenas aquela que oferece serviços. É aquela que consegue compreender as necessidades das pessoas, integrar os diferentes pontos de atenção e acompanhar o usuário durante toda a sua trajetória de cuidado. E, nesse desenho, a atenção primária ocupa um lugar central, funcionando como ordenadora dessa rede e compartilhando responsabilidades com os demais serviços.E talvez esse tenha sido o maior aprendizado desses dois dias.

A regulação ganha vida quando alguém compartilha uma experiência que pode ajudar outro estado, quando uma dúvida gera uma reflexão coletiva ou quando um desafio deixa de ser individual para se tornar uma busca conjunta por soluções. No fim das contas, a oficina foi um lembrete de que o SUS se fortalece justamente nesses espaços onde diferentes olhares se encontram.

Ao final da oficina, cada equipe começou a desenhar o retorno para casa. Como levar aquelas discussões para os colegas? Como transformar ideias em ações? Como fazer com que tudo o que foi debatido ali ganhe vida nos territórios?

As respostas ainda estão sendo construídas. Mas uma certeza já acompanhava todos na bagagem. Mais do que uma oficina, esses dias foram um encontro de experiências, desafios e esperanças compartilhadas. E talvez seja por isso que, no começo deste texto, eu tenha chamado tudo isso de aventura. Porque algumas viagens não servem apenas para nos levar a um lugar. Elas servem para mudar a forma como enxergamos o caminho.

Luiza Tiné/ Assessoria de Comunicação do Conass