Planificação da Atenção à Saúde contribui para reduzir a mortalidade infantil no Ceará

Metodologia criada pelo Conass promove a integração dos serviços de saúde, qualifica o atendimento e aproxima os profissionais das necessidades da população

Quando se fala em Sistema Único de Saúde (SUS), é comum que os desafios, especialmente de acesso, venham à mente. Mas o SUS também é feito de histórias de transformação, de profissionais que trabalham juntos e de pessoas que encontram, perto de casa, um atendimento organizado, integrado e humanizado.

Imagine uma gestante acompanhada por uma equipe que reúne médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde, com acesso aos serviços de saúde sempre que necessário. Ou uma criança que recebe acompanhamento desde os primeiros dias de vida, com diferentes profissionais trabalhando de forma coordenada para garantir seu desenvolvimento. Esse cuidado integrado é um dos caminhos para fortalecer o SUS e está no centro da Planificação da Atenção à Saúde , metodologia que conta com o apoio do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass).

Os primeiros passos da Planificação foram dados em 2004, com o propósito de transformar os princípios do SUS em práticas concretas, organizando os serviços em Redes de Atenção à Saúde (RAS) e colocando as necessidades das pessoas no centro do cuidado. Ao longo de mais de duas décadas, a metodologia, criada pelo Conass avançou, chegou a diferentes territórios e aperfeiçoou processos de trabalho, enfrentando desafios para construir um sistema cada vez mais integrado, justo e resolutivo.

Um dos exemplos dessa transformação está no Ceará, onde a metodologia foi incorporada ao Projeto De Braços Abertos, desenvolvido pela Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), desde junho de 2024, em parceria com o Conass, Organização Pan-americana da Saúde,  Associação Umane, Hospital Israelita Albert Einstein, Beneficência Portuguesa de São Paulo e o Conselho Brasileiro de Oftalmologia.

A iniciativa abrange os 45 municípios da região do Cariri cearense e tem como ponto de partida o Plano de Ação Regional, elaborado pela Sesa em conjunto com as Secretarias Municipais de Saúde. A região de saúde alcançou um importante avanço na redução da mortalidade infantil. Em setembro de 2026, a Taxa de Mortalidade Infantil  chegou a 8,6 óbitos por mil nascidos vivos, resultado que supera a meta mobilizadora estabelecida pelo Projeto De Braços Abertos, de reduzir o indicador para menos de 10 óbitos por mil nascidos vivos. 

A redução da mortalidade infantil, um indicador que revela não apenas as condições de saúde da população, mas também as desigualdades sociais e a capacidade de resposta dos serviços públicos.

Para enfrentar esse desafio, o projeto estruturou a Linha de Cuidado Materno-Infantil, com ações voltadas à qualificação da assistência, da gestão e da educação permanente dos profissionais. A proposta é garantir que gestantes, mães e crianças recebam acompanhamento contínuo, sem que o cuidado se perca na passagem de um serviço para outro.

Entre as estratégias estão a estratificação do risco gestacional, o compartilhamento do cuidado às gestantes de alto risco, a vinculação regionalizada da gestante ao local do parto e a navegação assistencial em situações de urgência obstétrica, parto e nascimento. O trabalho também prevê o monitoramento da alta hospitalar e a continuidade do acompanhamento após a saída da maternidade.

Resultados e avanços

O monitoramento da série histórica da Taxa de Mortalidade Infantil, realizado por meio de janelas móveis de 12 meses, identificou oscilações no indicador ao longo do período, incluindo picos em julho de 2025 e setembro de 2026. Apesar dessas variações, os dados apontam uma trajetória de redução progressiva ao longo de 2026.

O resultado de setembro de 2026, de 8,6 óbitos por mil nascidos vivos, representa a superação da meta pactuada e evidencia os avanços alcançados com a organização da rede de atenção e a qualificação do cuidado materno-infantil. 

O desempenho também se reflete nos territórios. Três Áreas Descentralizadas de Saúde (ADS) registraram taxas inferiores à média regional, com destaque para uma delas, que alcançou o índice de 5,6 óbitos por mil nascidos vivos.

Os dados reforçam a importância da cooperação entre estado, municípios e instituições parceiras, bem como do fortalecimento da integração entre os diferentes níveis de atenção à saúde. A experiência do Cariri demonstra o potencial da Planificação da Atenção à Saúde como estratégia para organizar as redes de atenção, qualificar o cuidado e contribuir para a melhoria dos indicadores de saúde da população.

Uma revolução que precisa continuar

Drauzio Varela e a presidente do Conass, Tânia Mara Coelho

Convidado a conhecer de perto a experiência da Planificação o Cariri, o médico e escritor Drauzio Varella destacou a dimensão das transformações promovidas pelo SUS ao longo das últimas décadas. Ao recordar sua infância, ele compartilhou uma realidade muito diferente daquela vivida atualmente por milhões de brasileiros. “Eu não tomei nenhuma vacina nos primeiros anos de vida. Nenhum daqueles moleques que jogaram bola comigo na frente da fábrica de casa foi vacinado. Fui ao pediatra pela primeira vez quando tinha sete anos, porque acordei com os olhos inchados”, relatou.

A lembrança contrasta com os avanços conquistados pelo sistema público de saúde, especialmente na ampliação do acesso à vacinação e ao atendimento pediátrico. Para Drauzio, a criação do SUS representou uma transformação histórica na saúde brasileira. “É uma revolução no Brasil. Quando falo para os estudantes, digo que a minha geração assistiu a uma revolução na saúde que vocês não vão ver, porque não vai existir outra com a importância que teve a criação do SUS”, afirmou.

O médico também chamou a atenção para a necessidade de repensar a organização dos serviços diante do envelhecimento da população e dos desafios de financiamento da saúde. Na avaliação dele, a resposta passa pelo fortalecimento de iniciativas que reorganizem o cuidado e envolvem a sociedade. “Não é com dinheiro que nós vamos resolver esse problema. Isso tem que nascer da própria sociedade, que é esse trabalho maravilhoso que vocês estão fazendo aqui”, destacou.

A atenção primária como ponto de partida

A experiência cearense nasceu justamente da necessidade de reorganizar a atenção primária e fortalecer a relação entre o estado e os municípios. A presidente do Conass e secretária da Saúde do Ceará, Tânia Mara Coelho, relembrou que, ao assumir a gestão da pasta, encontrou uma estrutura fragilizada e recebeu dos gestores municipais relatos sobre a falta de apoio e coordenação estadual. “Fui abordada pelos técnicos da Secretaria da Saúde, que me disseram que a nossa atenção primária estava totalmente desestruturada e que precisávamos reorganizar. Também ouvi dos secretários municipais as queixas sobre a falta de coordenação e de apoio do estado à atenção primária”, contou.

A partir desse diagnóstico, Tânia buscou apoio de especialistas em saúde pública e iniciou a articulação para construir uma proposta de fortalecimento da rede. Em parceria com o Conass, o projeto foi apresentado à Associação Umane e aprovado, dando origem ao De Braços Abertos.

Ao longo desse processo, a gestora afirma ter ampliado sua compreensão sobre o papel estratégico da atenção primária na organização do sistema de saúde. “Eu descobri a importância da atenção primária. Mais do que tudo, é ela que faz a diferença. Por isso, seguimos nesse caminho de querer fortalecê-la cada vez mais”, ressaltou.

Tânia também lembrou o protagonismo histórico do Ceará na construção de políticas de atenção primária, especialmente pela experiência pioneira dos Agentes Comunitários de Saúde, idealizada no estado e que se tornou referência para todo o País.

A experiência do projeto De Braços Abertos demonstra que fortalecer o SUS exige mais do que ampliar estruturas ou disponibilizar recursos. É preciso integrar equipes, organizar os fluxos de atendimento, compartilhar responsabilidades e garantir que cada pessoa seja acompanhada ao longo de sua trajetória de cuidado.

É nesse movimento que a Planificação da Atenção à Saúde reafirma seu propósito: transformar a organização dos serviços em melhores condições de atendimento para a população. Afinal, por trás de cada indicador, protocolo ou linha de cuidado, existem pessoas, famílias e histórias que precisam ser acolhidas pelo SUS.

Documentário Drauzio e os Agentes

É nesse contexto de valorização do cuidado próximo das pessoas que a Região de Saúde do Cariri recebeu, na quarta-feira (4), o lançamento regional do documentário Drauzio e os Agentes. A iniciativa busca reconhecer e dar visibilidade ao trabalho dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS), profissionais fundamentais para o funcionamento do SUS e para o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde. O documentário percorre diferentes regiões do Brasil para mostrar o cotidiano desses trabalhadores, sua relação com as comunidades e sua contribuição para a promoção da saúde, a prevenção de doenças e a identificação precoce de situações de risco.

Presentes no dia a dia das famílias, os agentes comunitários conhecem de perto a realidade dos territórios, identificam necessidades e aproximam a população dos serviços de saúde. Essa atuação é essencial para a Estratégia Saúde da Família (ESF) e para a organização de uma assistência mais próxima, acessível e resolutiva.

Durante o lançamento, Drauzio Varella destacou a importância da experiência cearense para a consolidação da Estratégia Saúde da Família no País. “O programa que acabou virando a Estratégia Saúde da Família começou aqui no Ceará, com o médico Carlile Lavor, que participou do evento. Ele criou uma forma de atendimento com agentes comunitários que iam de casa em casa identificando os problemas de saúde. Isso teve um impacto enorme. A mortalidade materna caiu mais de 30% e a mortalidade infantil caiu 30%”, relembrou.

Drauzio também ressaltou a organização da rede de atenção no Cariri e a importância de compartilhar a experiência com outras regiões do País. “Aqui no Cariri, hoje, tem um trabalho estruturado mesmo, da Estratégia Saúde da Família funcionando como uma rede de atendimento. Queremos divulgar para o resto do país o que é esse tipo de atendimento maravilhoso, qual é o papel dos agentes comunitários, ou das agentes comunitárias, que são 80% mulheres”, afirmou.

O médico também chamou a atenção para a necessidade de ampliar o conhecimento da população sobre o SUS. Segundo ele, o documentário busca aproximar os brasileiros do sistema público de saúde e mostrar a importância do trabalho realizado pelos agentes comunitários nos territórios.

Para Tânia, o Ceará tem um papel histórico nessa trajetória, sendo pioneiro na criação e institucionalização do programa de Agentes Comunitários de Saúde no Brasil. “O lançamento regional também integra as estratégias do Projeto De Braços Abertos para fortalecer a saúde pública na Região do Cariri, aproximando profissionais que atuam nos territórios e gestores responsáveis pela organização dos serviços municipais de saúde”, disse.

Segundo ela, a valorização dos agentes comunitários reforça um dos princípios fundamentais da Planificação da Atenção à Saúde, que é organizar o sistema a partir das necessidades das pessoas e dos territórios. “São esses profissionais, muitas vezes, o primeiro elo entre as famílias e o SUS, contribuindo para que o cuidado não aconteça apenas quando a doença aparece, mas de forma contínua, preventiva e humanizada”, comentou.

Mais do que contar histórias, o documentário dá visibilidade a quem conhece de perto a realidade das comunidades e transforma presença, escuta e acolhimento em instrumentos de cuidado.

Assista:

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Luiza Tiné

Assessoria de Comunicação do Conass