Em Defesa do IHB e do SUS!

Aos moradores da região metropolitana do DF , como cidadã, usuária e trabalhadora do SUS, ex-presidente do Conselho Nacional de Saúde , sinto-me no dever de emitir opinião sobre a organização do serviço do Instituto Hospital de Base (IHB) para atendimento ao usuário que lá consegue acesso.

Acompanhei meu irmão (professor da rede pública de Goiás e Distrito Federal), no dia 28 de novembro. Ele deu entrada na emergência e ficou internado no setor de neurocirurgia deste hospital até a noite de 30 de novembro, com traumatismo craniano decorrente de uma queda do telhado.

Por ser morador de um município em Goiás, a internação no IHB aconteceu após a saga de percorrermos prontos-socorros de dois hospitais, seguindo o irracional fluxo de algumas pactuações regionais, inclusive o Hospital Regional de Taguatinga (HRT), de onde foi transferido.

O caso dele exigia local com tomógrafo, neurologista e leito para internação, encontrado integralmente no IHB. Nesta unidade hospitalar, desde a entrada havia   controle da movimentação da entrada e saída de pessoas. Tratava-se de pessoal terceirizado e qualificado para o serviço de recepção.

O sistema de controle interno informatizado com dados do paciente e inclusão de dados do acompanhante, com horário programado para visitas e trocas, mostrando segurança e evitando a acumulação de pessoas de forma desnecessária na área de internação.

Havia segurança fora e dentro do hospital, mulheres e homens, com tratamento respeitoso e informando corretamente a localização interna das alas aos usuários.  O ambiente estava visivelmente higienizado (estacionamento, recepção, corredores, escadas, elevadores, banheiros, rampas). Diversas áreas com lixeiras e álcool gel acessível a todos. Os funcionários, a maioria do gênero feminino, usavam crachá ou tinham seus nomes nos jalecos.

A enfermaria da neurocirurgia, onde meu irmão ficou internado, estava com equipe completa e funcionando com plantões de 12/12h. Percebi profissionais de saúde ininterruptamente em atividade, buscando entrosamento e eficiência.  O atendimento foi humanizado com diálogo e respeito aos usuários.

Vi idosos, negros, detentos pressionais, população em situação de rua, cadeirante, pedreiro, professor, dona de casa, aposentados sendo todos tratados indistintamente. Na enfermaria, ainda que com número excessivo de internos   dispostos em macas e pelos corredores, constatava-se prioridade aos casos mais graves e aos idosos.  O ar-condicionado da neurocirurgia estava funcionando.

Foram seis refeições por dia, com cardápio variado, alimentação fresca servida no horário e de acordo com a dieta do paciente, com sabor agradável e sem faltar refeição para o acompanhante.

A radiologia, por receber demanda externa da emergência e dos pacientes internados, estava demorando cerca de uma hora e meia na fila para atendimento, porém o aparelho de raio X e o tomógrafo funcionavam em pleno funcionamento 24 horas.

Na enfermaria da neurocirurgia testemunhei ainda equipamentos e móveis novos, com camas hospitalares higienizadas, colchões cobertos, lençóis e cobertores limpos, cadeira para acompanhante, suporte para medicamento, sistema de câmeras.    Na troca de plantão, não percebi descontinuidade no serviço. Vi a aguerrida equipe de enfermagem ativa por 24 horas, com distribuição de profissional por número de pacientes.

Na lista, constava o nome da responsável por cada paciente. A medicação completa foi ministrada no horário, sendo informado ao paciente o que estava sendo-lhe ministrado.

Terceirizados bem treinados para higienização da cama/macas. Após liberação médica, meu irmão foi encaminhado para casa com orientação de referência para retorno ao ambulatório do IHB.

Feito e dando publicidade a este relato nas redes sociais, fui questionada se defendo a terceirização do Sistema Único de Saúde (SUS), que engorda os lucros dos empresários e torna precária as relações e vínculos da força trabalho. Respondi e reitero que, como princípio ético -político, defendo um SUS 100% público.

Todavia, atendimento no SUS deve seguir seus princípios centrais e sua finalidade social que é atender as necessidades reais da população no tempo adequado, de acordo com as especificidades.

Concordo com as opiniões quanto ao baixo ou médio funcionamento geral da rede pública do DF, mas o IHB de Brasília merece ser elogiado. Se o modelo de gestão “instituto” é o ideal, ainda não sabemos a resposta.

Portanto, precisamos avaliá-lo e debatê-lo publicamente, com participação direta de seus usuários. Se o custo do repasse financeiro da Secretaria de Estado da Saúde do DF para o IHB for maior que o anteriormente repassado ao modelo de gestão, que se torne transparente o relatório de sua prestação de contas para toda sociedade, sobretudo para o controle social.

Desconheço se há e se não houver, recomendo um conselho gestor legitimamente representado para participar de forma direta das decisões e avaliação dos serviços prestados pelo IHB à população.

A defesa do SUS deve ser feita considerando o conjunto de seus princípios e diretrizes, mas o imperativo ético de atender universal e integralmente a todos usuários é imprescindível, caso contrário nunca teremos a aprovação da sociedade e nem veremos a população aguerrida em defesa do SUS!

Em tempos em que muitos políticos não têm histórico de compromisso com o SUS e nem com a defesa da democracia, não podemos simplesmente pensar e agir inter e intracorporativamente, mas com a racionalidade da práxis Marcuseana que vincula a luta revolucionária à democracia e à luta por direitos sociais!

Socorro Souza, pesquisadora Fiocruz Brasília, docente da Escola Fiocruz de Governo, ex-presidenta do Conselho Nacional de Saúde.

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